ReproduçãoCaetano Veloso: ‘‘Antonio Carlos Magalhães tem algo de moderno, embora sua posição seja muito arcaica para o meu gosto’’Ao falar sobre o seu show ‘‘Fina Estampa 2’’, que estreou ontem e fica até domingo no Teatro Castro Alves, em Salvador, o cantor e compositor Caetano Veloso criticou o chamado pagode pornô do grupo É o Tchan e voltou a defender a axé music. Contou que está preparando um novo disco, termina um livro e foi convidado a fazer a trilha sonora do próximo filme do cineasta italiano Michelangelo Antonioni.
Leia os principais trechos da entrevista:
Fale sobre seu novo disco e o livro.
Caetano Veloso -Desde Circuladô, em 1992, não gravo um disco só meu e este ano vou fazer outro, sim. Quanto ao livro, são reminiscências, impressões, opiniões. É um livro grande, mas ainda inacabado. Devo concluir este ano.
Wally Salomão disse que o lugar da axé music é na lata do lixo. Você concorda?
Caetano -A axé music é a minha vida, apaixonei-me pelo samba-reggae, pelo galope e todo esse movimento e estou metido nisso. Wally sabe que essas pessoas que fazem a axé music são maravilhosas. Mas concordei com ele, por outro lado, quando ele partiu para defender Maria Bethânia de declarações indelicadas de Netinho e Bell, do Chiclete com Banana.
Bethânia e Dorival Caymmi também criticaram a axé music.
Caetano -Caymmi para mim é um deus, mas não me identifico com aquela posição dele. É verdade que existe um excessivo comercialismo e isso traz porcaria e servidão para os artistas. A música não deve se submeter ao comercialismo.
E o pagode baiano?
Caetano -Não gosto muito, trazem letras moralmente inaceitáveis. O que se deve ressaltar nessa nova música baiana é, por exemplo, o Olodum, cuja batida inspirou o mestre da bateria da Escola de Samba Viradouro, vencedora este ano no Rio. Chamaram de batida funk, mas ele garantiu que a batida era do Olodum.
É verdade que Michelangelo Antonioni o convidou para fazer a trilha sonora do seu próximo filme?
Caetano -Ele me convidou, estou esperando que ele faça o filme primeiro e mande uma cópia para eu trabalhar.
O que você achou da receptividade do filme ‘‘Tieta’’, cuja trilha é de sua autoria?
Caetano -É um filme de que gostei muito, que teve dez vezes mais público que os outros filmes nacionais dos últimos tempos. Acontece que houve uma campanha abominável, na mídia, de depreciação da obra. Além do mais, foi graças a ‘‘Tieta’’ que eu voltei a colocar uma música de sucesso no carnaval baiano, ‘‘À Luz de Tieta’’.
Gostaria de comentar a morte do jornalista Paulo Francis, com quem você polemizou há alguns anos?
Caetano -Eu gostava muito dele. Uma vez, respondi de maneira muito agressiva a uma crítica que ele me fez. Precisava atacar com os dois pés, pois era a única forma de assustá-lo. Durante um certo tempo, deixei de ler sua coluna, pois seria masoquismo. Voltei a ler nos últimos dois anos, ele era muito engraçado. Creio que não gostava de mim, porque entrevistei o Mick Jagger e ele não. Quando soube de sua morte, perguntei: será que o enfarte não terá sido faxina? É que ele se referiu ao massacre da Candelária como ‘‘faxina’’. Gláuber Rocha tentou me aproximar dele, mas não deu certo. Acho que o meu santo não era compatível com o dele. Paulo Francis era o palhaço da ultradireita e isso era válido também. Ele era maravilhoso nas entrevistas com escritores americanos e ingleses, creio que seu talento estava aí.
Como você acompanhou a votação que aprovou a reeleição de presidente da República?
Caetano -Eu sou a favor da reeleição, até para Fernando Henrique Cardoso, mas não gostei dessa votação tão esmagadora. Como é que o PMDB num dia estava contra e no outro dia ficou a favor? A imagem que fica é que houve jogo de interesse. O presidente pode pensar: ‘‘Eu posso tudo.’’ Isso pode destruir a sua civilidade.
Como você está vendo a política na Bahia?
Caetano -Tive uma participação pública mais ou menos teimosa no governo de Lídice da Mata (ex-prefeita de Salvador). Achei que ela reagiu com muita dignidade e coragem a essa massa uniforme que existe na política na Bahia.
Qual a sua relação com o senador Antonio Carlos Magalhães?
Caetano -Nenhuma. Ele é muito doce comigo, adora minha mãe. Lembro que uma vez fui muito duro, quando ele apoiava o governo Collor, mas ele não reagiu. Mas a figura de ACM deve ser revista. Será que ele é conservador mesmo? Será que ele representa o coronelismo do Nordeste? Não sei. Ele tem algo de mais moderno, embora a posição dele seja muito arcaica para o meu gosto.

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