Mesmo com agenda lotada por causa da turnê do show ‘‘Livro Vivo’’, Caetano Veloso reservou a folga entre um espetáculo e outro para falar do livro ‘‘Verdade Tropical’’, que lançou no ano passado. O compositor participou, na noite de anteontem, do projeto Rodas de Leitura, no Centro Cultural Banco do Brasil e conversou com uma platéia de cerca de 200 pessoas. Inicialmente tímido, Caetano só se descontraiu quando começou o debate com o público. Confessou que estava nervoso: ‘‘Acabei de chegar de uma excursão no Cone Sul e não tive condições de preparar-me’’.
O compositor estava visivelmente desconfortável ao encarnar o personagem de escritor. Em alguns momentos, suas mãos tremiam. Explicou que os seis trechos que seriam lidos foram escolhas suas. ‘‘Procurei selecionar textos com um mínimo de unidade’’, observou.
Os textos funcionaram como um resumo de ‘‘Verdade Tropical’’: lembranças dos tempos na prisão, reflexões sobre o Brasil, o mundo e a família. Ao ler o trecho em que recorda a sua saída da prisão, ao lado de Gilberto Gil, emocionou-se com a lembrança de seu pai. ‘‘Escolhi esse trecho, mas quase desisti porque ele é muito emocional’’, comentou.
Terminada a leitura, o compositor propôs o início do bate-papo com a platéia. O gelo foi quebrado por uma declaração de uma jovem, que gritou: ‘‘Você é maravilhoso!’’ Caetano riu, dizendo que era um bom começo e foi logo se declarando um eterno apaixonado pelos livros.
Caetano garantiu que se divertiu muito enquanto escrevia ‘‘Verdade Tropical’’, mas, ao finalizar a obra, surpreendeu-se ao sentir uma angústia profunda. A sensação passou e agora ele até consegue relativizar as coisas. ‘‘Esse é um livro que eu posso até mesmo criticar’’, afirmou para logo depois reconhecer que Verdade Tropical tem lacunas provocadas pela falta de uma pesquisa mais séria. ‘‘Nesse sentido, é um trabalho totalmente subjetivo, mas com um lugar na vida objetiva’’.
Caetano pode até escrever outro livro, mas ainda não se vê como escritor. ‘‘É muito tarde para eu me sentir como algo que nunca fui na vida’’, ressaltou. ‘‘Não me considero um escritor e músico; sou um compositor e cantor de canções’’.

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