Cadelas contam história de Tróia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de abril de 1998
Jackeline Seglin 
DivulgaçãoCena de As Cadelas: personagens femininas exumam o passado de TróiaOpressão feminina, a crueldade da Guerra, cinco mulheres... As Cadelas. Quem for ao Núcleo I hoje à noite poderá assistir a este espetáculo que o grupo do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp, de Campinas, apresenta na Mostra Regional/Nacional Universitária do Festival Internacional de Londrina (FILO).
A montagem é baseada na peça teatral de Eurípedes e na leitura de Jean-Paul Sartre sobre as troianas. Com texto de Antônio Rogério Toscano e direção de Maria Thaís, As Cadelas reconta a história da formação e queda de Tróia a partir do ponto de vista de cinco mulheres: Hécuba, Helena, Polixena, Cassandra e Andrômaca.
As Cadelas é um espetáculo que se constrói sobre as ruínas da cidade de mítica de Tróia. Um dia após a invasão articulada pelo exército grego - responsável pela chacina de todos os homens troianos - as cinco mulheres sobreviventes do massacre apresentam-se como personagens que exumam, com a memória, o passado de glória que gerou a guerra. No ato narrativo, o embate entre memória e história concentra o conflito central da trama.
O diferencial desta montagem é a aplicação do projeto de pesquisa Ator como Narrador, criado e desenvolvido pelo Departamento, sob coordenação de Maria Thaís. Trata-se de uma disciplina extracurricular que pesquisa a linguagem narrativa. Ou seja, a recuperação do processo de como contar a história, explica a atriz Rachel Brumana.
Neste processo, as cinco mulheres contam a mesma história sob pontos de vista próprios. A dramaturgia deu forma a duas vozes previstas na concepção do espetáculo: as vozes do ator/narrador e do ator/personagem. Com isso, não queremos só contar a história, mas recuperar a força da palavra.
Segundo o grupo, a estrutura da narração impossibilita o desenvolvimento do herói trágico, subverte a memória e bestializa as personagens (são cadelas!).
O texto foi escrito no decorrer do processo de montagem. O autor Antônio Rogério reuniu os elementos indicados pela diretora e o material levantado pelas atrizes para então dar a forma às vozes narrativas. Que história vamos contar? Foi a partir disso que começamos a pesquisa da dramaturgia, lembra Priscila Jorge. O resultado não traz a descrição do mito da Guerra de Tróia, mas realça o entrelaçamento dos diferentes pontos de vista, optando por uma poesia rica em imagens, mas essencial na forma, e favorecendo a comunicação direta do ator com a platéia.
Depois de seis meses, o texto final estava pronto. A junção das narrativas pessoais das personagens teve como ponto de partida poucos elementos cênicos: camas ginecológicas, lustres retráteis e luminárias móveis. O grupo conta que as cenas foram construídas oferecendo um olhar multifacetado e violento sobre a presença feminina na Guerra de Tróia. As camas são usadas de diversas maneiras, construindo diferentes formas e espaços, criando outros significados, observa Tânia Alonso. As luminárias e lustres funcionam também como elementos expressivos, completa Priscila Jorge. A iluminadora é incorporada ao espaço cênico. É um olhar em cena que rege o movimento do espetáculo e, assim, torna-se mais um ponto de vista.
Além desses elementos, as atrizes usam ainda coletes ortopédicos, com os quais cada uma das personagens mobiliza uma parte do corpo. Cada atriz construiu no colete uma simbologia da vida pessoal, da personagem, do narrador... o colete é um painel de memórias, analisa Rachel Brumana.
Com predominância feminina, o espetáculo traz uma surpresa para o público. Um homem. O que o conflito reserva a ele, somente a apresentação vai mostrar. O ator Marcelo Pinta apenas adianta que ele é uma figura neutra, é mais um narrador.
As atrizes revelam que o público vai pode fazer sua própria viagem. No espetáculo, são construídas imagens e fica a cargo das pessoas interpretá-las, avalia Priscila Jorge. A platéia - dividida em duas partes dispostas frente a frente - vai entrar no espetáculo. O público terá uma experiência de sentidos, conta Rachel. Quando se trabalha a linguagem narrativa, é difícil estabelecer uma parede com o público. Ele então é praticamente jogado no espetáculo, conclui Marcelo.


