Cadeião é o lugar ideal para dar passagem às angústias
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sexta-feira, 17 de maio de 2002
Francelino França Reportagem Local 
O diretor do Teatro da Vertigem, Antônio Araújo, considera o Cadeião da Rua Sergipe o local ideal para o espetáculo Apocalipse 1,11. A arquitetura degradante, os corredores escuros, as paredes com inscrições de ex-detentos recuperam a atmosfera ligada à memória do lugar. O local definido para as apresentações do espetáculo é um dos eixos importantes da proposta realista. As paredes estão crivadas de inscrições. Mesmo que o fogo se apague na cinza, fica o calor. Mesmo que o amor se apague no coração, fica a dor, inscrição de João, que passou pelo local em 13 de abril de 1993.
O Teatro da Vertigem completa 10 anos e seu trabalho se tornou uma referência positiva na cena teatral brasileira. Em novembro de 1992, eles estrearam Paraíso Perdido, que fala de um anjo caído e dos homens caídos. A platéia acompanhava o anjo como num calvário, na Igreja de Santa Efigênia, em São Paulo. Paraíso Perdido causou a ira de católicos fundamentalistas. Mas nessa peça, a presença do elemento divino está mais fraco do que o humano.
Em 1995, o grupo levou ao hospital Umberto Primo a peça O Livro de Jó, adaptação do texto bíblico, que retrata a trajetória de Jó, diante de seus questionamentos sobre a existência de Deus, depois de perder os filhos, os bens materiais e ter o corpo coberto de chagas. A questão da Aids dizimando pessoas levou Antônio Araújo a colocar em primeiro plano a doença, encenando a peça num hospital.
Não foi pensado como um trilogia. O que eu acho mais curioso é que na articulação das partes foi acontecendo uma trilogia, afirma Araújo, em Londrina . A perseguição aos textos bíblicos se deu de forma casual. Paraíso... (igreja/céu), Jó (hospital/purgatório) e Apocalipse (presídio/inferno). Não temos respostas a essas angústias apresentadas na trilogia, mas elas estão mais aplacadas, considera o diretor.
Para as comemorações dos 10 anos do Teatro Vertigem, Araújo está articulando o projeto de levar a trilogia de volta à cena paulistana. Quero começar com Apocalipse no Carandiru, que está sendo desativado. No dia 3 de outubro completam 10 anos do massacre, destaca o diretor. Apocalipse 1,11 traz no título uma referência direta ao episódio.
A proposta do Teatro da Vertigem provoca intensas reações. Em Paraíso Perdido fiéis invadiram a igreja, enviaram telegramas, cartas ameaçadoras e telefonemas enfurecidos à Cúria. Até Paulo Maluf, então candidato, prometeu que não permitiria apresentações teatrais em igrejas.
Em O Livro de Jó (que revelou o ator Matheus Nachtergaele) muitas pessoas desmaiavam, pelo impacto das imagens e o cheiro de éter. Os atores aprenderam técnicas de primeiros socorros. Em Apocalipse... as reações são de recusa e muitos saem blasfemando antes do término do espetáculo.
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