O diretor do Teatro da Vertigem, Antônio Araújo, considera o Cadeião da Rua Sergipe o local ideal para o espetáculo ‘‘Apocalipse 1,11’’. A arquitetura degradante, os corredores escuros, as paredes com inscrições de ex-detentos recuperam a atmosfera ligada à memória do lugar. O local definido para as apresentações do espetáculo é um dos eixos importantes da proposta realista. As paredes estão crivadas de inscrições. ‘‘Mesmo que o fogo se apague na cinza, fica o calor. Mesmo que o amor se apague no coração, fica a dor’’, inscrição de João, que passou pelo local em 13 de abril de 1993.
O Teatro da Vertigem completa 10 anos e seu trabalho se tornou uma referência positiva na cena teatral brasileira. Em novembro de 1992, eles estrearam ‘‘Paraíso Perdido’’, que fala de um anjo caído e dos homens caídos. A platéia acompanhava o anjo como num calvário, na Igreja de Santa Efigênia, em São Paulo. ‘‘‘Paraíso Perdido’’ causou a ira de católicos fundamentalistas. ‘‘Mas nessa peça, a presença do elemento divino está mais fraco do que o humano’’.
Em 1995, o grupo levou ao hospital Umberto Primo a peça ‘‘O Livro de Jó’’, adaptação do texto bíblico, que retrata a trajetória de Jó, diante de seus questionamentos sobre a existência de Deus, depois de perder os filhos, os bens materiais e ter o corpo coberto de chagas. A questão da Aids dizimando pessoas levou Antônio Araújo a colocar em primeiro plano a doença, encenando a peça num hospital.
‘‘Não foi pensado como um trilogia. O que eu acho mais curioso é que na articulação das partes foi acontecendo uma trilogia’’, afirma Araújo, em Londrina . A perseguição aos textos bíblicos se deu de forma casual. ‘‘Paraíso...’’ (igreja/céu), ‘‘Jó’’ (hospital/purgatório) e ‘‘Apocalipse’’ (presídio/inferno). ‘‘Não temos respostas a essas angústias apresentadas na trilogia, mas elas estão mais aplacadas’’, considera o diretor.
Para as comemorações dos 10 anos do Teatro Vertigem, Araújo está articulando o projeto de levar a trilogia de volta à cena paulistana. ‘‘Quero começar com Apocalipse no Carandiru, que está sendo desativado. No dia 3 de outubro completam 10 anos do massacre’’, destaca o diretor. ‘‘Apocalipse 1,11’’ traz no título uma referência direta ao episódio.
A proposta do Teatro da Vertigem provoca intensas reações. Em ‘‘Paraíso Perdido’’ fiéis invadiram a igreja, enviaram telegramas, cartas ameaçadoras e telefonemas enfurecidos à Cúria. Até Paulo Maluf, então candidato, prometeu que não permitiria apresentações teatrais em igrejas.
Em ‘‘O Livro de Jó’’ (que revelou o ator Matheus Nachtergaele) muitas pessoas desmaiavam, pelo impacto das imagens e o cheiro de éter. Os atores aprenderam técnicas de primeiros socorros. Em ‘‘Apocalipse...’’ as reações são de recusa e muitos saem blasfemando antes do término do espetáculo.
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