Cadáveres embalsamados em luz
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de maio de 2002
Marcos Losnak Especial para a Folha 
Jorge Amado e Paulo Coelho tornaram-se os nomes da literatura brasileira mais lidos mundo afora, na segunda metade do século 20. Embora tenham vendido milhares e milhares de livros, não atingiram a influência que Machado de Assis (1839 - 1908), Euclides da Cunha (1866 - 1909) e Guimarães Rosa (1908 - 1967) exerceram e ainda exercem na literatura mundial.
Embora tenham sido traduzidos para poucas línguas, Machado, Euclides e Guimarães são referências na literatura brasileira para o resto do mundo. O caso mais peculiar fica nas mãos de Euclides da Cunha. Com um único título, Os Sertões, tornou-se o autor menos popular e o mais citado da língua luso-brasileira.
Os Sertões, publicado originalmente em 1902, deixa os leitores de outros países boquiabertos. Considerado um clássico chato pela maioria dos brasileiros, o livro é capaz de tumultuar a mente de muita gente que nunca colocou os pés no Brasil.
Entre os inúmeros exemplos está o caso do escrito húngaro Sándor Márai (1900 - 1989). Após ler com muito esforço Os Sertões, numa tradução em língua inglesa (realizada por Samuel Putnam), Márai ficou com os cabelos em pé e com a pulga atrás da orelha. Decidiu, então, criar um romance narrando tudo aquilo que ficara de fora da narrativa de Euclides da Cunha. Uma ficção que oferecesse uma leitura particular ao episódio de Canudos.
Quando começou o livro, em 1968, ele acompanhou pelos jornais as manifestações dos estudantes pelas ruas de Paris e não teve dúvida: encontrou algo semelhante ao movimento comandado por Antônio Conselheiro, no sertão brasileiro, no final do século 19, e o movimento de Maio de 68. Segundo Márai, os dois movimentos revolucionários, embora tenham ocorrido de modo e maneira distintas, continham elementos anarquistas na essência: a crítica ao poder institucionalizado seja ele qual for.
A obra de Sándor Márai, Veredicto em Canudos chega agora ao Brasil lançada pela Companhia das Letras. Narrada por um ex-cabo do Exército Brasileiro que relembra, 50 anos depois, sua participação na Guerra de Canudos. Seu relato se concentra nos últimos dias da batalha, quando a cabeça degolada de Antônio Conselheiro foi exibida como prova da vitória da República sobre os alucinados revolucionários.
Veredicto em Canudos pode ser dividido em dois blocos. No primeiro, o narrador apresenta uma descrição do ambiente de batalha, onde um exército armado conseguiu vencer às duras penas um religioso povoado praticamente desarmado. No segundo bloco, apresenta o embate verbal entre uma mulher, mensageira de Antônio Conselheiro, e o marechal Bittencourt, responsável pelo massacre dos sertanejos revolucionários.
O diálogo entre o marechal e a mulher (que por sinal é estrangeira) traz o embate quase filosófico entre os dois lados da moeda. De uma lado, um oficial republicano; de outro, uma burguesa européia convertida aos ideais de Conselheiro. Nessa troca de impressões, a razão e a ordem republicana não conseguem entender a utopia dos sertanejos de Canudos. Essa razão, essa ordem, estaria aquém de uma nova experiência comunitária de vida experimentada por pessoas que, de volta ao estado primordial, passam a renegar o estado evoluído de civilização. Um estado fracassado de civilização.
Literariamente, Veredicto em Canudos não chega a ser uma das melhores obras de Sándor Márai. Se comparado aos outros romances publicados no Brasil As Brasas (1999) e O Legado de Eszter (2001) permanece um pouco atrás em sua força narrativa. Mas possui a capacidade de realizar uma abordagem mais abrangente da Guerra de Canudos, deslocando sua pequena questão temporal/geográfica para um leitura mais abrangente, declaradamente ficcional.
Sugere que, ao contrário do que se pensava no início do século 20, a revolução de Conselheiro não pregava uma nova sociedade, mas uma verdadeira utopia, uma nova vida. Algo que o sistema político, inclusive a democracia, não foi capaz de entender. Como outras utopias, ela estava fadada à morte. Como se a prática de sonhos não fosse possível no mundo real, no mundo da razão e da ordem. Os heróis de Canudos foram convertidos em cadáveres embalsamados em luz. Não foi sem motivo que Sádor Márai morreu disparando um tiro na própria cabeça.
Serviço;
Veredicto em Canudos de Sándor Márai, Editora Companhia das Letras, tradução de Paulo Schiller, 176 páginas, R$ 23,00.


