Se duvida, alugue e veja a diferença: ao contrário do cinemão hollywoodiano, o cinema europeu é o que melhor cabe na tela do seu vídeo. E por uma simples razão. Cinema americano em escala industrial, vale dizer, é quase por definição o espetáculo. Poucas idéias, pouca conversa, ação desmedida, excessos visuais, cérebro em desuso, humanos à parte. Se já é complicado caber na tela grande, imagine a camisa de força da variante eletrônica. Já aos europeus, em particular, interessa antes o que contar, e só então de que modo contar. Entre tantos e tantos casos, é o caso desse ‘‘Chacun Cherche son Chat’’ (Cada um Procure seu Gato), título original preferível já a partir da sonoridade. O modestíssimo filme de Cédric Klapisch é a história da jovem Chloé, que para sair de férias é obrigada a deixar com alguém o gato Gris-Gris. Finalmente a alma caridosa é madame Renée, uma aposentada que acolhe gatos diversos. Mas quando Chloé volta o gato sumiu.
É isso. Não acontece mais nada. Quer dizer, esta história de gato não passa de um pretexto. Um tênue fio condutor que serve de guia invisível para que se possa explorar um vizinhança parisiense e conhecer seus habitantes. Eles existem de todas as idades, raças e sexos. Coabitam numa espécie de simpático caos. O mais estranho é que temos a impressão que o filme poderia se passar não importa onde e nem importa quando.
Na verdade, a ‘‘inação’’ se passa em Paris, no bairro da Bastille (filmado sempre de dentro para fora, evitando-se a armadilha do cartão postal) onde nos muros dos terrenos baldios estão ostensivamente afixados os cartazes da campanha presidencial de 1995 e no rádio se anuncia a vitória de Chirac. Jovens, maduros e velhos discutem sobre tudo, falam trivialidades sobre suas vidas, seu comportamento, suas roupas. Tudo com bom gosto e igual dose de ironia, passando pelas falsas pistas ou pela elipse - a que simboliza as férias de Chloé é hilariante. O olhar está colocado sobre as pessoas e nos lugares onde elas vivem. O resultado é tão ou mais surpreendente por causa do grupo de atores, profissionais ou não, que funcionam dentro de um registro natural. Como é frequente neste gênero de exercício, executado aqui com um instinto quase infalível, o importante não é o rigor ou a estrutura, mas a espontaneidade..

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