Cada um por si
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Ganhador do Oscar e do Globo de Ouro na categoria ''Melhor Filme Estrangeiro'', o longa iraniano ''A Separação'' - estreia desta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - é um emocionante drama familiar, que consegue ir além das barreiras sociais e religiosas do Irã. O longa tem o mérito de atingir qualquer público, justamente por refletir um problema universal: a falta de comunicação entre as pessoas.
Em uma narrativa simples que alcança, com atuações maravilhosas, o equilíbrio entre complexidade e familiaridade em seus protagonistas, o filme começa com o pedido de divórcio entre o casal Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi). O motivo da briga é o seguinte: ela não quer mais viver no Irã, pensando no futuro de sua filha. Ele não quer sair do país, para não abandonar seu pai (Ali-Asghar Shahbazi), que sofre do mal de Alzheimer e necessita de cuidados especiais. A filha do casal, Termeh (Sarina Farhadi, que também é filha do diretor do filme) parece querer ficar do lado do pai, e também não demonstra disposição para se mudar.
A esposa, inconformada com a teimosia do marido, decide ir morar na casa da mãe. Sem a ajuda dela, Nader se vê obrigado a contratar uma ajudante para cuidar de seu pai durante o dia, enquanto ele está no trabalho. Através de algumas indicações, ele contrata Razieh (Sareh Bayat), uma muçulmana devota, que - mesmo com receios quanto às questões religiosas - aceita trabalhar na casa de um homem solteiro, pela necessidade de dinheiro. Seu marido, Hodjat (Shahab Hosseini), não pode saber das condições do novo emprego.
Em uma narrativa que se desenvolve no ritmo certo, uma sequência de incidentes vai colocar em rota de colisão a vida de todos esses personagens. Através de lentes realistas e intimistas, o diretor Asghar Farhadi se revela, em seu segundo longa-metragem, como um dos mais promissores cineastas do cinema contemporâneo.
A tensão na história se desenvolve com maestria, entre meias palavras e sentimentos implícitos. Em um momento, a família se entreolha pelas janelas dos cômodos da mesma casa, em um silêncio constrangedor que, naquela situação, vale mais que mil palavras.
No sentido amplo, a comunicação (ou a falta dela) é o tema que percorre todo o longa: doente, o pai de Nadar não fala nem uma palavra; Samin não consegue dizer ao marido que ainda o ama; Razieh vive um conflito intenso entre sua religião e o bem de sua família; Termeh quer dizer a verdade mas, ainda assim, precisa mentir.
Os personagens, tridimensionais, fogem à armadilha do maniqueísmo. Nenhum deles está completamente errado em seu comportamento, e essa humanização tem tanto sucesso que, depois de certo ponto, é difícil não se envolver verdadeiramente com as vidas dos protagonistas e compartilhar de seus conflitos e emoções.
O fato de que um filme como este conseguiu conquistar todos os maiores prêmios do Cinema, emocionando audiências do mundo inteiro, é prova de que a essência humana é capaz de quebrar, através da arte, todas as barreiras culturais, sociais e religiosas que existem. Mesmo sendo produto de um país repleto de conflitos extremistas, talvez o ponto mais interessante de ''A Separação'' seja o fato de não expor uma crítica direta à sociedade iraniana; pelo contrário, através do olhar de Asghar Farhadi percebemos que, mesmo em uma nação que preza por valores completamente diferentes daqueles que conhecemos, também não existem mocinhos ou bandidos estereotipados. Somos humanos, e isso é tudo.


