Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Após receber o prêmio Nobel de Literatura em 1993 a escritora norte-americana Toni Morrison permaneceu em silêncio. Não teve nenhuma pressa em publicar nenhuma nova obra aproveitando o momento em que seu nome aparecia em todos os jornais. Somente depois de quase cinco anos, no fim de 1997, um novo romance de sua autoria chegou às livrarias, ‘‘Paradise’’. A edição brasileira, ‘‘Paraíso’’ acaba de se lançada pela Editora Companhia das Letras.
Professora de literatura na Universidade de Princeton, Toni Morrison sempre deu destaque, em sua ficção, a dois universos básicos, o feminino e o do negro norte-americano. ‘‘Paraíso’’ é fiel a este caminho. Narra a história de uma tradicional comunidade negra no interior do país e, paralelamente, os conflitos femininos de uma grupo de mulheres que vivem numa espécie de convento próximo.
Ruby é uma pequena cidade no meio do Oeste americano fundada no final do século passado por famílias negras. Com muito trabalho, ergueram uma cidade onde toda pessoa branca é indesejada. Após se livrarem da ditadura branca inauguram a ditadura negra. Vivendo da agricultura, criam uma próspera comunidade regida por fortes e firmes preceitos morais e religiosos. Rígidos em suas tradições, as pessoas nascidas em Ruby não se misturam, nem com brancos, nem com outros negros:
‘‘Ali a liberdade não era um divertimento, como um carnaval ou uma quermesse com que se pode contar uma vez por ano. Nem era migalha caída da mesa dos proprietários. Ali a liberdade era um teste que o mundo natural aplicava diariamente ao homem. E se esse homem passasse nos testes durante tempo suficiente, seria rei’’.
O totem da cidade é um forno comunitário que carrega todos os princípios morais da cidade. Cada tijolo que o compõe carrega a história de seus construtores. É o local de encontros, reuniões e decisões. Em sua tampa, de ferro fundido, está gravado um respeitado slogan: ‘‘Temei a ruga de Sua testa’’.
Com o passar do tempo - a partir dos anos 60 - as novas gerações começam a se contaminar com o mundo externo. Ao contrário de representar a abertura da comunidade, esta contaminação representará a necessidade de endurecer a rígida moral dos patriarcas da cidade. Como todo paraíso necessita de uma serpente para colocar em cheque suas verdades, Ruby não correrá o risco, eliminará qualquer coisa ou pessoa que represente o fim do ‘‘paraíso’’ construído.
Uma das coisas que ameaça a pureza de Ruby é um convento situado nas redondezas. Na realidade um ex-convento antigamente habitado por missionárias brancas empenhadas em alfabetizar crianças índias da região. Com a morte das velhas freiras, mulheres aparecidas por acaso, sem nenhuma explicação, passam a habitar o local, numa espécie de comunidade feminina. Mulheres fugitivas de vidas amargas e de problemas pessoais.
Narrando estes dois universos, a população de Ruby e as mulheres do convento, Toni Morrison instaura o conflito inevitável, tanto externo como interno. Nesta guerra localizada, a tradição de Ruby será mais sólida e usará a força para ‘‘limpar’’ o convento. Preconceito e intolerância em doses diárias.
Apesar de ser uma obra que exige um tempo longo de assimilação, mesmo com um exemplar domínio narrativo, ‘‘Paraíso’’ é um romance de altos e baixos. Ascensões e quedas que talvez ganhem maiores proporções aos olhos do leitor estrangeiro, ou seja, do leitor não americano. Isso porque a narrativa está repleta de referências específicas do léxico da população do oeste americano, em especial a comunidade negra.
A impressão que fica é que ‘‘Paraíso’’ se parece com um avião pronto para levantar vôo. Um avião bem colocado na pista de aterrissagem, devidamente abastecido, com todos os passageiros confortavelmente acomodados em suas poltronas, pilotos experientes devidamente autorizados ganhar os céus, aeromoças competentes em suas funções, mas, por motivos desconhecidos, o avião não decola.
•‘‘Paraíso’’ de Toni Morrison, Editora Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 366 páginas, R$ 26,00.

mockup