"Cacilda!" está de volta em versão reduzida
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 18 (AE) - A volta da peça "Cacilda!" ao Teatro Oficina, em versão reduzida e temporada regular, a partir de sábado, representa, de fato, o início de carreira de um outro espetáculo, não só por ter seu tempo de duração cortado em 60 minutos (agora são 3 horas e meia) como pelas mudanças no elenco, a começar pelo autor e diretor da peça, José Celso Martinez Corrêa, que foi internado no dia 9, com angina, no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. Zé Celso, que se recupera em sua casa, foi substituído pelo amigo e antigo companheiro do Teatro Oficina, o ator Renato Borghi, que participou das peças mais importantes do grupo, entre elas "As Três Irmãs" (1972), sua derradeira participação.
Além de Borghi, o novo elenco tem as atrizes Cristina Mutarelli e Lavínia Pannunzio, que dividem os papéis desempenhados por Lígia Cortez na primeira versão da peça (a mãe de Cacilda, entre outros). Bete Coelho continua a interpretar o papel-título, antes dividido com Giulia Gam. Renato Borghi faz o avô protestante de Cacilda e o papel do ator e diretor Ziembinski. Com essa mudança da primeira para esta temporada, o talento multifacetado de Cacilda Becker é traduzido por uma só atriz. Cacilda, no entanto, era muitas, pluralidade lembrada pelo poeta Drummond de Andrade quando ela morreu, aos 48 anos, em 1969, após sentir-se mal durante uma apresentação da peça "Esperando Godot". Num poema-epitáfio dedicado à atriz, Drummond escreveu: "A morte emendou a gramática/Morreram Cacilda Becker". Tempo de ator - O autor de "Cacilda!" foi feliz ao dividir o papel da atriz na primeira temporada. Forneceu dados importantes sobre uma personalidade difícil de ser reduzida a um único corpo. Nessa primeira versão, Bete Coelho dividiu o papel com Giulia Gam e a veterana bailarina Renée Gumiel. A presença das três no mesmo palco desfez o que Zé Celso classificava de "coma" do teatro brasileiro nos anos 70, depois da morte de Cacilda Becker. Simbolicamente, a ausência do diretor em cena marca um novo tempo nesse mesmo teatro, que agora deve eleger os atores. Antunes Filho fez isso em seu Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), incumbindo os atores de escrever e representar os próprios textos. É possível que, a partir de agora, o público passe a esquecer um pouco a figura do diretor e comece a prestar atenção no trabalho de interpretação.
"Cacilda!", aliás, volta sem que o diretor e autor do texto tenha ensaiado o novo elenco. Quando retomava sua peça, José Celso foi hospitalizado e apenas deu instruções ao ator Marcelo Drummond sobre as mudanças na peça. Drummond, que interpreta o pai de Cacilda e também de seu marido, o ator Walmor Chagas, continua no elenco, formado ainda por Mika Lins, Iara Jamra, Fransérgio Araújo, Ariel Borghi e outros atores do Oficina. Cortes - Os cortes na peça atingem principalmente o segundo ato, que começa com uma cena do espetáculo americano "Dionysus in 69", montado pelo grupo experimental The Performance Group, de Richard Schechner, em Nova York, uma das últimas peças vistas por Cacilda Becker antes do colapso que a levou ao hospital. Giulia Gam dividia o papel de Cacilda com Bete Coelho, que agora assume integralmente a figura. É uma atuação comovente da atriz, que sempre enfrentou desafios gigantescos, principalmente nas peças dirigidas por Gerald Thomas.
Uma das cenas mais tocantes de "Cacilda!" mostra Bete como a pequena bailarina que, em Santos, tenta garantir a sobrevivência das irmãs e da mãe, abandonadas pelo pai. Faz parte do primeiro ato, que tem outras cenas igualmente marcantes - a cumplicidade das três irmãs fumando, a repreensão das meninas pelo roubo de comida, o primeiro caso amoroso da atriz. Essa delicadeza como bailarina é lembrada pelo ator Renato Borghi, que volta ao Oficina após 27 anos para cumprir uma curta temporada no teatro que o consagrou (Borghi fica no elenco por duas semanas). Elegância - "Quem vê Cacilda abrindo a porta no filme "Floradas na Serra" não acredita estar diante de um ser humano comum", diz. "Ela se move com extrema elegância, como a bailarina que sempre foi", lembra Borghi, que era um menino quando conheceu a atriz. Certa vez, conta, o Oficina estava em dificuldades financeiras para manter "Galileu" em cartaz e Renato desabafou. "Ela me deu uma bronca, dizendo que ninguém deveria saber de quanto precisava, porque é preciso despertar confiança, e não dúvida, nas pessoas".
Borghi também conta que Cacilda não provocava apenas admiração. "Muita gente não gostava dela", observa. O pai do ator, até mesmo. "Ele dizia que Cacilda falava como uma japonesa, sem ponto e vírgula". Após todos esses anos de carreira, o ator sente-se maduro para enfrentar, finalmente, um autor muito caro à amiga, Samuel Beckett (Esperando Godot foi a última peça de Cacilda). "Estou lendo tudo o que ele escreveu", diz, acenando com a possibilidade de um futuro espetáculo baseado no dramaturgo irlandês. Mãe brechtiana - Outra entrada no elenco é a da atriz Cristina Mutarelli, que interpreta a mãe de Cacilda, feita com muita sensibilidade por Lígia Cortez na primeira versão. Abandonada pelo marido com três filhas para criar, a mãe da atriz é descrita na peça como uma brechtiana mater dolorosa que transmite sua herança de coragem para as meninas, duas delas transformadas nos maiores nomes do teatro brasileiro contemporâneo (Cacilda e Cleyde Yaconnis).
No papel de Tônia Carrero entra Lavínia Pannunzio. Cenas como o encontro das duas divas são flashes da trajetória artística de Cacilda que, apesar da rapidez, não têm caráter anedótico. Antes, revelam a atitude da atriz que passou por todos os registros numa carreira que vai de diva do TBC a intérprete comprometida com os dramaturgos contemporâneos (Albee, Beckett). Parábola - "Cacilda!" não pretende ser uma biografia da atriz. Funciona como uma parábola sobre a evolução do teatro brasileiro nos anos 60 até sua entrada em coma com o avanço do arbítrio no País. A agonia da atriz no hospital transforma-se numa parábola sobre a perda da energia do teatro brasileiro logo após a morte de sua principal personagem, retratada como um rito de passagem em que transmite sua energia às gerações futuras.
Esse rito é pontuado por uma estética assumidamente barroca, exuberante como a canção-título da peça, composta por José Miguel Wisnick e já gravada para o próximo disco de Maria Bethânia. É um dos pontos altos do espetáculo, que recebeu novo tratamento visual com a incorporação de novos recursos de vídeo. O uso simbólico da luz e uma cenografia econômica e criativa (da escultora Laura Vinci) fazem de "Cacilda!" um espetáculo mais do que recomendável. É uma aula de dramaturgia dada por um homem que manteve o teatro brasileiro respirando na UTI durante o coma, José Celso Martinez Corrêa, candidato ao Prêmio Multicultural Estadão deste ano.


