Cacilda Becker não teve grandes oportunidades no cinema, mas seu neto, Luiz Guilherme Becker, de 24 anos, vai adaptar a vida da avó num filme com roteiro do ator goiano Edson Nunes, de 31 anos. Nenhum dos dois, obviamente, conheceu a atriz, morta há 29 anos, mas isso tem pouca importância. O filme, que será lançado no dia 14 de junho, marcando os 30 anos da morte da atriz, não pretende ser uma biografia fiel.
Antes, será um filme de ficção, em que Cacilda é interpretada por sua irmã mais nova, Cleyde Yaconis, a Diolinda Falcão da novela ‘‘Torre de Babel’’. Cleyde está sozinha em cena. Ou melhor, quase sozinha. Na segunda parte do filme, ao interpretar um dos grandes papéis da irmã, a vingativa madame de ‘‘A Visita da Velha Senhora’’, Cleyde Yaconis vai ter de levar uma pantera na coleira, como um cachorrinho de estimação.
A pantera livra-se da corrente que a aprisiona e atravessa a cortina do Municipal, mas ninguém sai devorado dessa história. A platéia está vazia, embora o som de vozes que já se foram seja projetado por toda a sala. Como na peça de José Celso, a fera pode ser uma representação metafórica de Godot, ou seja, de um ator que se projeta em outro ator e impede que a palavra persona seja destituída de seu sentido original, atirando o espectador (aquele que espera Godot) numa realidade inaugural, caótica, em que criador e criatura se confundem.
O filme, segundo seu roteirista, começa acompanhando o trajeto de Cacilda entre sua casa e o Teatro Muncipal. Ela observa uma velha senhora numa lanchonete, que servirá de modelo para a composição do personagem criado por Durrenmatt. Outros personagens desfilam na tela, entre eles o garoto sofredor e solitário de ‘‘Pega- Fogo’’ e o patético Estragon de ‘‘Esperando Godot’’.
O roteirista Edson Nunes conheceu o neto de Cacilda Becker numa sessão especial do filme ‘‘Central do Brasil’’, em abril. Edson, que também é jornalista, foi entrevistar a atriz Fernanda Montenegro, que estava conversando com Guilherme. ‘‘Foi empatia imediata’’, diz, descrevendo o encontro. Um telefonema no dia seguinte selou o convite para que o ator goiano trabalhasse no primeiro tratamento do roteiro.
O diretor Luiz Guilherme, filho de Cuca, produtor do filme, ainda não começou a filmar. Está captando recursos em empresas e espera contar com a mesma generosidade que encontrou no meio artístico. ‘‘O maestro Júlio Medaglia se ofereceu para compor a trilha sonora e o estilista Caio da Rocha vai desenhar os figurinos’’, revela. Essa preocupação com a forma é justificável. ‘‘José Celso (Martinez Corrêa) diz que ela foi a única atriz brasileira com glamour hollywoodiano, uma verdadeira Rita Hayworth’’.
Tanto charme não lhe rendeu bons papéis no cinema. Cacilda fez dois filmes, ‘‘Floradas na Serra’’ e ‘‘A Luz de Meus Olhos’’, obras medianas que não estavam à altura do talento da avó, segundo o neto cineasta, um entusiasta do cinema de Chaplin, Coppola e Walter Salles. Ele promete revelar uma nova Cacilda, frágil e romântica, para quem só conheceu a forte âncora da classe teatral.

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