O mercado editorial brasileiro apresenta lacunas monstruosas ao manter, inexplicavelmente, inéditas no País obras completas de escritores reconhecidos mundialmente, como Gustave Flaubert. Nadando contra a corrente, uma nova editora de Londrina será a primeira, por exemplo, a publicar no Brasil o texto ‘‘William Shakespeare’’, de Victor Hugo.
Esse é o caminho proposto pela Campanário: lançar obras de qualidade que ainda não aportaram por aqui. No prelo, há espaço para autores nacionais sem esquecer clássicos de terror ou policiais. A iniciativa partiu de um paulistano que – incentivado por motivos particulares – optou pelo êxodo rumo ao interior.
Paulo Schmidt já trabalhava no meio editorial em São Paulo, antes de abrir a Campanário há pouco mais de um ano, em Londrina. Com a divulgação do lançamento do livro de Victor Hugo, ainda no prelo, a editora está alcançando repercussão nacional.
‘‘Pensamos em algo que privilegiasse obras inéditas, mas que tivesse uma qualidade incontestável, obras quase mundialmente conhecidas e que não foram editadas no Brasil’’, comenta Paulo Schmidt. ‘‘A maioria dos textos clássicos são de domínio público, após 70 anos da morte do autor expira o domínio individual. O período é menor quando o autor morre e não deixa descendentes, mas isso varia de país para país’’, completa.
Entre os livros já lançados pela Campanário estão autores regionais como ‘‘Contos da Meia Noite’’, da socióloga Maria Lúcia Victor Barbosa; e em breve sairá ‘‘Tudo o que Você Deve Saber Antes de Abrir o Seu Negócio’’, de Denilson Vieira Novaes – único título que foge à linha da editora ao ser direcionado a futuros empresários.
O catálogo inclui Alexandre Dumas (pai), contemplado com ‘‘A Rainha Margot’’ e ‘‘O Homem da Máscara de Ferro’’, além de ‘‘Os Alquimistas’’, de Charles Mackay. Outros títulos que estão saindo são os da série ‘‘Mitos de Cthulhu’’, com dois livros já publicados e dois no prelo – a idéia é lançar um livro por bimestre, em um total de oito (veja texto nesta página).
Além disso, a Campanário está recebendo e analisando manuscritos diversos e vem tentando diminuir a distância que normalmente existe entre editores e autores. ‘‘Sempre damos um retorno para o autor, procuramos incentivar as pessoas a nos mandarem, mas não prometemos nada. Procuramos esse diálogo, mas não somos prestadores de serviço. Uma vez aprovado o texto, o autor não tem ônus, ele recebe a parte dele e não paga para editar. Por isso a seleção é rigorosa, porque a editora paga tudo’’, acentua.
Com anos de mercado editorial, Paulo questiona o argumento de que no Brasil não se vende livro porque o brasileiro não lê. ‘‘O leitor brasileiro nunca leu tanto. Esse chavão ocorre quando se compara o volume de livros que um parisiense lê com o de um brasileiro. Em termos qualitativos nunca houve tantas publicações. A prova disso é que a Bienal de São Paulo foi muito boa, tanto em volume de vendas como de visitantes.’’
O maior problema do mercado editorial brasileiro seria justamente o formato antiquado: ‘‘O sistema de distribuição é arcaico, não há renovação, apenas em nível técnico, com programas que facilitam desde a composição até a impressão. Os livreiros pegam poucas edições, não se arriscam. O número de livrarias não atende a uma população desse tamanho. Não há falta de bons autores e não há carência de leitores, mas há dificuldade em chegar ao leitor, é um trajeto difícil. O mercado também é assim porque nunca houve uma atitude diferente por parte do leitor, a educação é responsável por isso.’’
Um dos grandes desafios da Campanário é justamente despertar interesse do mercado sem se afastar da qualidade e evitar prejuízos. Por isso, a divulgação é fundamental para ajudar as vendas – uma editora pequena não suporta mais do que dois ou três títulos encalhados.
Entre os próximos lançamentos está ‘‘A Tentação de Santo Antonio’’, texto de Flaubert, provavelmente ainda inédito no Brasil, com prefácio de Jorge Luís Borges – feito para uma edição argentina. Outra novidade será ‘‘A Pedra Lunar’’, clássico do romance policial escrito pelo inglês Wilkie Collins, também com prefácio de Borges.
Há ainda ‘‘O Anticristo’’, do francês Ernest Renan, sobre a implantação do cristianismo, e ‘‘O Conto de Genji’’, um clássico japonês de Murassaki Shikibu, escrito no Japão feudal, também inédito no Brasil.
Mas as atenções estão mesmo voltadas para ‘‘William Shakespeare’’, de Victor Hugo, o livro que facilitou a aceitação da obra do dramaturgo inglês na França, construído em um estilo inclassificável: não é romance nem biografia, talvez se aproxime do ensaio. O texto ainda está no forno, mas em breve chegará às lojas com tradução de Renata Cordeiro e Paulo Schmidt, 328 páginas, ao preço de R$ 28,00.
‘‘O simples fato de existirmos já é uma vitória. Até sair do vermelho leva um ano ou mais. Isso desencoraja as jovens editoras porque o livro é um produto difícil. Apesar de não ser taxado, a estrutura é arcaica. Cabe a todos os segmentos se manifestarem em função de uma indústria mais ágil, de livreiros com condições de oferecer mais títulos aos leitores por um preço mais baixo. Quanto mais títulos e mais tiragens, mais condições de vender a um preço menor’’, argumenta Paulo Schmidt.
Os contatos com a Campanário Editorial podem ser feitos pelo telefone (043) 328-1840 ou pelo e-mail [email protected].

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