São Paulo, 12 (AE) - Cenas engraçadas protagonizadas por personagens que parecem ter saído de um filme do italiano Federico Fellini ou do espanhol Almodóvar. Essa é a expectativa em torno da audição que o diretor Cacá Rosset realiza na terça-feira para selecionar o elenco da próxima montagem do grupo Ornitorrinco: "Scapino", de Molire (1622-1673).
A tradução do original "Les Fourberies de Scapin" será do próprio Rosset, que, a exemplo de Molire, também interpretará o personagem central, o ardiloso criado Scapino, no espetáculo que estréia em abril no Teatro Sérgio Cardoso. Rosset procura tipos esquisitos para compor a população da cidade de Nápoles, onde transcorre a ação da peça. Ele recebeu 250 currículos com as respectivas fotos dos tipos mais estranhos, entre os quais selecionou cerca de 50 para testar.
Os canditados vão apresentar uma cena curta de sua criação ou retirada de uma peça teatral. "Claro, não basta ser esquisito, é preciso ter talento", diz o diretor. Daí já ter escolhido o ator Cláudio Lopomo, paulistano de 75 anos, sósia do ator italiano Totó, para o papel de gerente de uma cantina napolitana na Nápoles recriada por Rosset. "Fico feliz de voltar ao palco do Teatro Sérgio Cardoso, onde atuei pela última vez em 1983 como cômico central da peça "Aí Vem o Dilúvio", diz Lopomo. "Apresentei meu trabalho ao Cacá, que ficou encantado e garantiu que terei o meu momento no espetáculo".
Rosset enfatiza que sua busca nada tem a ver com a exploração da deformidade, no estilo mundo-cão. "Utilizo o termo esquisito no sentido etimológico da palavra, que é raro, precioso", explica. "A arte deve ser um antídoto contra a padronização da sociedade massificada e globalizada; sendo assim
tem uma função até ecológica de preservação da diversidade humana". Peça - Como toda cidade portuária, Nápoles carrega a fama de abrigar larápios e golpistas de todos os quilates. Scapino é um desses velhacos, o típico criado da Commedia DellArte, dotado de grande inteligência e perspicácia, inteiramente dedicado a planejar artimanhas e trapaças contra seus patrões. A trama da peça é simples. Scapino é criado de Leandro, que está apaixonado por uma jovem de família pobre, Jacinta, com quem quer casar-se contra a vontade de seu pai, Argante.
Otávio, amigo de Leandro, encontra-se em situação semelhante: apaixonado pela cigana Zerbineta, jamais conseguirá de seu pai Geronte a permissão para o casamento. Scapino entra em cena para ajudá-los e, a partir daí, o público estará diante de uma sucessão vertiginosa de estratagemas, todos com o objetivo de ludibriar os patrões. Num deles, por exemplo, Scapino diz para o velho Geronte que o violento irmão da cigana Zerbineta acaba de chegar à cidade com um exército de mercenários.
O objetivo do cigano não é outro senão arrancar a pele de Geronte, a quem Scapino se dispõe a proteger, escondendo-o dentro de um saco. A partir daí, o criado arruma mil e uma maneiras de surrar o saco, sempre fingindo ser outro quem o faz. "Ele faz um sotaque de espanhol e finge dialogar - faz as duas vozes - com o irmão de Zerbineta que bate nele e no saco", conta Rosset. A cada vez que Geronte pensa em sair, Scapino imita a voz de outro mercenário e volta a bater no velho.
Segundo o diretor, a peça é uma sucessão daquelas cenas cômicas clássicas, recriadas à exaustão seja no teatro, no cinema ou em desenhos animados, como as cenas de pancadarias de Tom e Jerry. "O mundo da farsa beira sempre o inverossímil, daí a velocidade, o tempo acelerado, para que não se tenha tempo de pensar sobre o absurdo das situações; o mundo da farsa é um mundo em frenesi", observa o diretor.
Molire criou "Scapino" dois anos antes de morrer e, curiosamente, voltou nesse texto à forma farsesca de suas primeiras comédias. "Mas era então um mestre, um autor maduro e sofisticado, já com uma linguagem muito depurada", diz Rosset. "Se a tragédia fala sobre a inexorabilidade da morte, a comédia possibilita abrir um parêntese na vida para rir da condição humana, da nossa finitude".

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