Cacá Diegues começa a trabalhar em "Deus é Brasileiro"
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de outubro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 03 (AE) - Cacá Diegues já está de volta ao Rio. Desembarcou na quinta-feira. Na sexta, já estava no escritório da empresa produtora Rio Vermelho, depois de um mês de estrada. Cacá esteve nos Festivais de Telluride, no Colorado, Toronto, no Canadá, e San Sebastián, na Espanha, acompanhando a exibição de "Orfeu". Na quarta, o filme chega às locadoras de todo o País num lançamento da Warner Home Vídeo. Por mais ligado que Cacá ainda esteja em "Orfeu", o filme é passado para ele. A partir de amanhã, Cacá retoma os trabalhos de escritura do roteiro do próximo filme, uma parceria com o escritor João Ubaldo Ribeiro.
Há quase três anos, logo após o lançamento de "Tieta", que adaptou do romance de Jorge Amado, Cacá anunciou que havia comprado os direitos de "Já Podeis da Pátria Filhos". Foi em janeiro de 1997. Ele chegou a anunciar que ia iniciar a rodagem no ano seguinte, ou seja, 1998. Deixou o projeto de lado para se dedicar integralmente a "Orfeu". Agora, Cacá volta a João Ubaldo.
O livro reúne 17 contos ambientados no universo da Ilha de Itaparica, na Bahia. Cacá está interessado particularmente na história de "O Santo Que não Acreditava em Deus". Seu filme vai chamar-se "Deus É Brasileiro" e está sendo escrito com o próprio João Ubaldo. "Já fizemos o primeiro tratamento e agora vamos para o segundo", informou Cacá numa entrevista feita por telefone de San Sebastián, logo após a exibição de "Orfeu" na mostra competitiva do festival espanhol.
Na história, um matuto da Ilha de Itaparica encontra-se com Deus no meio de uma pescaria. Debochado e meio cínico, Deus conta suas agruras para o atônito pescador e lhe pede que o ajude a encontrar um homem conhecido como Quincas das Mulas. Como o Brasil não possui um santo, o Todo-Poderoso está querendo atender a um pedido do papa para instituir um santo brasileiro. Sua escolha recai sobre Quincas, mas não é fácil localizá-lo, o que leva Deus a uma reflexão: "Eu vivo procurando um santo aqui
outro ali; até parece que sou eu quem precisa de ajuda, mas não
são vocês."
Será uma comédia, "despretensiosa, alegre, discutindo a diversidade cultural baiana e o sincretismo religioso do povo brasileiro", informa Cacá. Embora goste muito da história, ele não acreditava que "O Santo Que não Acreditava em Deus" pudesse render sozinho um longa-metragem e, por isso, foi logo comprando os direitos do livro inteiro. Depois do intervalo de um mês, retoma o trabalho de adaptação e roteiro com João Ubaldo. Volta cheio de idéias.
São estranhos os caminhos que levam à realização de um filme. No livro "Os Filmes Que não Filmei", com a entrevista que deu a Sílvia Oróz, Cacá dissecou seu processo criativo. Mostrou como surgem as idéias, mas como seu processo pode ser lento. Às vezes um filme pode ficar anos sendo elaborado. Foi o caso de "Orfeu", que Cacá queria filmar desde que viu a peça de Vinícius de Morais, ainda adolescente. Ele conseguiu concretizar o projeto somente no ano passado, com a parceria da empresa Warner. Há dois anos manifestou o interesse de filmar o conto de João Ubaldo, mas o filme ficou no limbo por causa de Orfeu. "Deus É Brasileiro" está voltando com tudo.
Parceria - Não é a primeira associação do cineasta com o escritor, pois João Ubaldo já foi um dos roteiristas de "Tieta". E também não foi uma decisão intempestiva, pois Cacá já conhecia o livro há anos. Ele foi publicado em 1981 com o título de "Livro de Histórias". Foi relançado dez anos depois com o acréscimo de dois contos e o título mudado para "Já Podeis da Pátria Filhos". Cacá comprou os direitos do livro, mas não de todas as histórias. Há uma que já foi "mais ou menos" prometida para Hector Babenco.
Cacá conhece o livro desde que surgiu. Estava em Portugal, com Gláuber Rocha, quando João Ubaldo lhe deu um exemplar. De cara percebeu o potencial do material, mas seguiu fazendo outros filmes, levando sua carreira. Tem algumas vagas idéias de atores, mas ainda acha prematuro falar sobre isso. Também não sabe quanto o filme vai custar. "Só quando entrar em pré-produção e fizermos o cálculo exato dos custos para a captação", informa.
É com entusiasmo que ele se lança ao novo projeto. Mas ainda não se desligou de "Orfeu", até porque o filme ainda faz parte do dia-a-dia de sua vida e da vida de sua empresa produtora. "Orfeu" foi exibido no Festival de Telluride, no Colorado, Estados Unidos, no mês passado. Ganhou críticas ótimas. "Variety", a bíblia do show business americano, não deixou por menos e considerou "Orfeu "o melhor filme do evento com a nova comédia de Woody Allen.
De Telluride, o filme foi para Toronto. "Era a única produção latina na mostra canadense", informa Cacá. Ele teve uma de suas grandes emoções ao participar de uma sessão chamada Dialogue, em que um diretor convidado apresenta um filme de sua preferência, que foi importante em sua vida e carreira. Escolheu "Faces", de John Cassavetes. De novo, "Orfeu" teve boas críticas.
De Toronto, seguiu para San Sebastián. Desta vez, ao contrário de Telluride e Toronto, que são mostras informativas, havia competição. "Orfeu" não ganhou, mas Cacá informa que o público foi caloroso e Toni Garrido passou a ser assediado pelas fãs, na rua. "Lá, ele não é conhecido como cantor", diz Cacá. "Seu sucesso se deveu ao filme mesmo." Garrido teve boas críticas na imprensa, ao contrário do que ocorreu no Brasil, onde ele foi malhado como ator. O filme também repercutiu. "Teve críticas ótimas, menos a do "El País", que não gostou"
conta Cacá.
Periferia - "Orfeu" ultrapassou a marca de 1 milhão de espectadores. Cacá encanta-se ao comentar que o filme, no Brasil
se comunicou muito bem com os jovens, fazendo sucesso nos cinemas de periferia. A preferência dos jovens por "Orfeu" continuou no exterior. Antes de voltar ao Brasil, Cacá passou por Paris. O filme estréia na capital francesa no fim do mês, mais exatamente, no dia 27. Logo em seguida virá o lançamento na Espanha, talvez em novembro. E, no ano que vem, "lá por março"
"Orfeu" estreará no Japão. Cacá não sabe se estará disponível para acompanhar a carreira internacional de Orfeu, mas vai pelo menos a Paris para a estréia.
Outra carreira de "Orfeu" no Brasil começa esta semana no vídeo. Na quarta, você já poderá retirar Orfeu na sua locadora. É um produto audiovisual bem elaborado e acabado, com belas imagens de Afonso Beato e trilha não menos bela de Caetano
mapeando a história da música urbana brasileira, com sua mistura de samba tradicional, bossa nova e funk. "Orfeu" transpõe para o morro carioca (e para o carnaval) o mito grego. Contrapõe o morro ao asfalto, numa reflexão que não é original, mas é interessante (Roberto Farias fez isso antes em "O Assalto ao Trem Pagador", nos anos 60). A Warner sai com 25 mil fitas. "É um bom número, sinal de que eles acreditam no êxito do filme nas locadoras", conclui Cacá.


