A Warner anda vendendo o novo filme do diretor Frank Darabont como uma espécie replicante de ‘‘A Felicidade Não se Compra’’, exemplar da comédia chorosa e moralizadora que o especialista Frank Capra realizou em 1946. Mas apesar dos esforços, ‘‘Cine Majestic’’, em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação nesta página), não passa no teste nem como imitação - ninguém foi capaz de ser tão Capra quanto o próprio. E isto não é elogio para o filme de Capra ou para este seu descendente escandalosametne maniqueísta.
Se este filme neo-sentimental tem alguma coisa de estimulante, sem dúvida é a certeza de que existe de fato potencial vida dramática em Jim Carrey, reconhecido perito em comédias desvairadas. Sim, Carrey é capaz de atuar, mesmo que num filme tão derivativo e esquemático como ‘‘The Majestic’’ ele atravesse as quase duas horas e meia praticamente como um holograma, não como um personagem atual, palpável, de carne e osso.
No início dos anos 50, Peter Appleton (Carrey) é um ambicioso roteirista de um estúdio de Hollywood. Seu primeiro trabalho, ‘‘Sand Pirates of the Sahara’’, é um hit instantâneo. Mas na esteira do sucesso, Peter se complica perante o Comitê de Atividades Anti-Americanas por causa de uma remota ligação com um grupo de estudantes comunistas. O estúdio o despede imediatamente. Perturbado, Peter sofre um acidente e acorda numa praia próxima a uma pequena cidade. E sem qualquer vestígio de memória.
Para arredondar a fábula, ele é rapidamente adotado pelos habitantes de Lawson, que o confundem com Luke, um filho da terra há nove anos desaparecido na Segunda Guerra. O pai do rapaz (Martin Landau) parece não ter problemas em acreditar no pródigo retorno. O mesmo vale para Adele (Laurie Holden), a namorada do desaparecido. O amnésico Peter aceita as novidades e em pouco temp está ajudando o ‘‘pai’’ a reativar o Majestic, único cinema da cidade. Por vários meses, Peter aproveita a nova vida, mas aos poucos dá sinais de que está recobrando a memória. Enquanto isso, agentes do FBI que rastrearam Peter o levam a depor perante a comissão liderada pelo senador McCarthy. Ele se defende e volta a Lawson, onde mais uma vez é recebido com honras de herói.
Darabont (os anteriores ‘‘Um Sonho de Liberdade’’ e ‘‘À Espera de um Milagre’’ já eram títulos e temas complementares para esta volta à Capra) e o roteirista Michaell Sloane pode até ter feito um tributo aceitável aqui e alí, mas o todo é fabricado e deliberado em demasia para ser convincente. O pessoal da cidadezinha é tão unidimensional e tão arquetípico que às vezes o espectador tende a suspeitar se não são irreais e existem apenas enquanto sonho de Peter.
‘‘Cine Majestic’’, em sua ambição, investe contre o sistema de justiça americano, a caça às bruxas, a hipocrisia e a Hollywood dos anos 50. Mas a gana de ser politicamente correta é tão forçosamente exuberante em suas apreciações que o resultado funciona como um bumerangue. A bandeira da liberdade é afinal pisoteada pelo pior maniqueísmo que Hollywood vem nos impingindo ao longo dos anos. Ainda que mostrando os senadores maccartistas como seres repugnantes, sua representação simplista é na verdade um insulto às dezenas de pessoas que sofreram na lista negra.

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