São Paulo, 21 (AE) - O grande interesse de Antônio Hélio Cabral sempre foi a pintura. Em seus quase 30 anos de carreira, o artista dedicou-se a desvendar os mistérios dessa linguagem universal, explorando incansavelmente o que ele chama de "desafios do métier". Ou seja, procurou aprender as minúncias do desenho, do ritmo, descobrir as estruturas cromáticas e formais que compõem uma obra. De sua primeira exposição, em 1970
até os trabalhos recentes - realizados nos últimos dois anos - que expõe na Pinacoteca do Estado de São Paulo foi um longo trajeto.
Como explica Leon Kossovich no livro da série "Artistas Brasileiros" sobre a obra de Cabral, lançado pela Edusp em 1995
"a relação de Cabral com a tela é de confronto". Nessa trajetória, o artista seguiu diferentes caminhos, experimentando materiais, investindo em diferentes estilos, como o expressionismo e o fauvismo, seguindo os passos e estudando os paisagistas paulistas das décadas de 30 e 40, como seu mestre Raphael Galvez, e até mesmo saindo dos limites da pintura por meio da apropriação de objetos em construções tridimensionais.
No entanto, a atual pesquisa de Cabral concentra-se sobre um segmento clássico da pintura: o retrato. Mas em vez de explorar esse estilo da pintura universal de forma clássica, ele utiliza o modelo para exprimir algo bastante impulsivo, que pode até ser confundido com o abstracionismo. Isso se dá de forma ainda mais evidente nas telas de dimensões monumentais que ocupam a última sala da mostra. Curiosamente, esses trabalhos não têm o impacto e a carga matérica das obras menores - nelas o artista retira o excesso de tinta em vez de adicioná-la, deixando as marcas de raspagens - , tornando evidente que seu processo de construção da figura está intimamente vinculado ao acúmulo de tinta, trabalhado de forma a criar uma espécie de topografia do rosto retratado. Labirinto e confronto - Essa materialidade da obra reforça o caráter processual e gestual de seu trabalho. "É como se eu trabalhasse no sentido contrário do minimalismo, desenvolvendo uma espécie de maximalismo", brinca o artista, alegando que no primeiro caso os artistas evitam ultrapassar as fronteiras da neutralidade, temem o confronto, enquanto que ele precisa chegar à contradição para que o trabalho adquira um rumo. "Acabo criando um labirinto de pinceladas, que se estruturam à semelhança daquele jogo de palitinhos que você tem de puxar um sem desmanchar o conjunto", resume.
Esse embate com a tela é encerrado pela "impossibilidade de continuação", diz o artista, mostrando como exemplo um auto-retrato em tons de cinza, laranja e rosa, no qual cada pincelada tem sua função precisa para a estruturação formal do conjunto e para sugerir ao espectador a idéia de que ali há um rosto. A cor tem uma importância vital na obra de Cabral, mas não "como uma relação absoluta entre superfícies e sim como dado que remete ao corpo da obra e ao corpo do retratado". Em outras palavras, o artista explica da seguinte forma sua relação com a questão cromática: "Quando a matéria se casa com a cor você tem a plasticidade absoluta, cada pincelada já define toda uma situação espacial".
Os tons que ele utiliza não têm nada de vibrantes, predominando os cinzas e os ocres. Seus retratados, cujas fisionomias são bastante difíceis de identificar num primeiro momento, exigindo um recuo do espectador em relação à tela - também têm fisionomias tensas e algumas delas chegam a estar fazendo caretas. Segundo a curadora da exposição, Mayra Laudanna
o fato de Cabral não seguir o caminho do retrato negociado, procurando agradar, tornar mais atrativo o objeto que esté pintando, e preferir exprimir na tela uma visão bastante particular e pessoal dos rostos que pinta é um aspecto interessante de sua obra.
O retrato é, na verdade, a forma encontrada pelo artista de investigar questões formais da pintura. "O desafio de Cabral é superar a distância entre a figura e o fundo; o volume na sua obra é quase como um relevo e o interessante é que a tela muda conforme o ponto de vista do espectador", ressalta. Além das pinturas, Cabral também aproveitou a oportunidade para lançar um álbum reunindo cinco litografias. Nesses trabalhos fica ainda mais evidente a importância do gesto em sua obra, já que ao tirar a materialidade garantida pela tinta, resta apenas uma espécie de radiografia do gesto. Também foi organizado um ciclo de palestras sobre sua obra, com a participação de Sérgio Miceli, Mayra Laudanna e Leon Kossovitch. Exposição - "Antônio Hélio Cabral". De terça a domingo, das 10 às 18 horas. R$ 5,00. Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, tel. 229-9844. Até 1.º/8. Abertura e lançamento de álbum amanhã (22), às 19h30, para convidados.

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