O jabuti é um animal que representa longevidade e sabedoria. E inspirado nessa simbologia, a Câmara Brasileira do Livro criou, em 1958, um prêmio para destacar o que de melhor aconteceu na produção editorial no País no ano. Este Prêmio contempla 15 categorias, que abrangem não só a produção literária, intelectual e científica, como também a delicada tarefa da tradução e o tratamento editorial à obra.
Para a premiação deste ano, foram analisados 1.587 livros, peneirados 156, e um segundo grupo de jurados garimpou 45 títulos. Na última sexta-feira, no 1º Salão Internacional do Livro de São Paulo, foram anunciados os ganhadores, deste que é considerado o mais importante prêmio literário brasileiro. Os vencedores de cada categoria receberam o troféu e R$ 1.000,00.
Os escolhidos na categoria Melhor Livro do Ano Ficção e o de Não Ficção receberam R$ 12.000,00 cada, além do troféu. Chico Buarque de Holanda, Carlos Heitor Cony, Ruy Castro, Caco Barcelos ostentam em suas estantes o diminuto jabuti verde, recebidos em anos anteriores.
A escritora de livros infantis Tatiana Belinky foi a homenageada da noite com o título de ‘‘Amiga do Livro 99’’. De origem russa, aos 80 anos, não se deu conta da legião de fãs que conquistou como escritora. ‘‘Fico sempre surpreendida de ser bem tratada. Já recebi muitos prêmios, mas esse é valioso e significativo’’, confessou emocionada à Folha2. Em mais de 50 anos de produção literária, Tatiana Belinky é reconhecidamente uma das maiores escritoras de livros infantis do País.
Gerações inteiras se deliciaram com suas histórias, nos mais de 90 livros publicados de ficção e didáticos. A autora foi a responsável por levar o ‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’’ à televisão. Durante a premiação, o público formava filas para cumprimentá-la. ‘‘Sou uma espécie de instituição’’, sussurrou delicadamente antes de um abraço caloroso.
Uma pesquisa rigorosa e um tema apaixonante impulsionaram Lilia Moritz Schwarcz a produzir uma obra de profundidade, que retratou um período histórico importante do País, o Brasil colônia. ‘‘Arrisquei neste projeto, solicitei verba a diversos órgãos, tive a colaboração de 10 alunos’’, disse. Literalmente, foi atrás da corte tropical, produzindo um rigoroso trabalho de historiografia, seguindo uma linha interpretativa. ‘‘As Barbas do Imperador’’ recebeu o prêmio de Melhor Livro Não Ficção produzido em 1998.
A esposa do escritor Carlos Nascimento Silva definiu o livro ‘‘Cabra-Cega’’ como um papo-cabeça. Para abocanhar o Jabuti de Melhor Livro do Ano na categoria Ficção, o autor pacientemente lapidou as 250 páginas do livro de um apuro estilístico ímpar, numa história arrebatadora. O romance foi ambientado na década de 60 e vai até o ano 2002. ‘‘É uma história da nossa época que discute preocupações que temos’’, resume Carlos Nascimento Silva.
‘‘Cabra-Cega’’ está próximo de esgotar a primeira edição, por uma editora modesta, a Relume Dumará. Mas o feeling do editor fez com que providenciasse uma segunda edição, pronta para ganhar as estantes das livrarias no País. Este é o segundo livro do autor, o primeiro é ‘‘Casa da Palma’’.
Nascimento Silva escreve desde os 14 anos, mas dividia toda sua produção com a gaveta. ‘‘Escritos de gaveta são muito comuns’’, acredita. Duas amigas leram alguns desses escritos e incentivaram a se tornar um escritor. ‘‘Sentei e comecei a escrever meu primeiro livro’’, confessou. Com a tenacidade de um jabuti, Carlos Nascimento Silva provou em cada página de ‘‘Cabra-Cega’’ um estilo sereno e criativo.

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