Caboclo expressionista
Iara Lessa
De Londrina
Especial para a Folha2
Perspectivas marcantes, volumes exagerados e maestria de cores são os elementos que o artista plástico mato-grossense Sebastião Mendes busca em seus trabalhos. Expressionista autodidata, Mendes é fissurado pela figura humana, em especial, pelo caboclo mato- grossense. Gosto de retratar o bugre, nosso caboclo, com suas feições, em seu ambiente, mas sempre acrescentando alguma coisa nova, conta Mendes.
Dono de um estilo que foi comparado a Picasso pela crítica européia, Mendes se diz influenciado também pelos pintores Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral, monstros brasileiros que o artista conheceu ainda menino. Me sinto honrado com a comparação mas também um pouco sem graça. Acho que exageraram, Picasso era um mestre consagrado. Sou apenas um aprendiz, diz modestamente.
Mendes, que foi educado em colégio religioso, teve como primeiro incentivador o Frei Matheus, um conceituado professor de artes do Colégio Santa Maria. Era ainda muito novo, tinha apenas 10 anos mas já mostrava jeito pela coisa.
Aos 16 anos, Sebastião Mendes descobre o caminho das pedras. Define seu estilo como expressionista, aposta na figura humana e começa a retratar o cotidiano de Cáceres, cidade que mora até hoje. Eu era muito novo quando comecei a pintar assim, com esses traços em perspectiva, com as cores harmônicas. Como começei muito novo, acabei atingindo mais cedo uma certa maturidade no trabalho, explica. Tanto que muitas vezes as pessoas se assustam, esperam que eu seja um cara bem mais velho, diverte-se.
Aliás, aos 33 anos, Mendes é um jovem artista consagrado. Sua primeira exposição individual aconteceu em Uberlândia, Minas Gerais em 1991. Em 95 Mendes realizou em Portugal sua primeira exposição internacional. O reconhecimento foi imediato. De Portugal o artista seguiu para Espanha, Alemanha e França. Devidamente reconhecido, era hora de conquistar o Brasil.
De volta, Mendes resolveu apostar para valer no público brasileiro. Você precisa fazer sucesso lá fora, mesmo que sua temática seja essencialmente regional, para conseguir vender um quadro no Brasil. Nossa cultura é mesmo importada, mas o que é bom sobrevive, denuncia Mendes.
Com obras espalhadas por países como Japão, Alemanha, Estados Unidos, Portugal, Áustria, Espanha, Rússia, China, Itália e França, Mendes é considerado hoje pela crítica especializada com um dos expoentes do expressionismo latino-americano.
Com sua obra voltada para o cotidiano, Mendes utiliza os fragmentos da atualidade mesclados ao resgate de costumes e hábitos. Unir as coisas do dia-a-dia às lendas e personagens típicos que estão sendo subjulgados pela mídia é uma forma de manifestar minha arte e contribuir para a cultura e preservação dos mitos, diz.
Os planos de Mendes incluem uma nova série de trabalhos mais abstratos. Criar é como andar por uma estrada que não te leva a lugar algum. Por isso é preciso observar a mudança da paisagem. A verdade é que você vai caminhando por esta estrada e aproveitando as dicas que ela vai dando. Recolhe uma nova técnica aqui, tem uma idéia ali, conhece alguém importante que dá alguns toques, enfim, quando você vê o trabalho está diferente, recebendo outras influências. Criar é um processo dinâmico, desafiante e que faz o artista estar sempre buscando novas alternativas para realizar o trabalho, finaliza o artista.





