WILSON BUENO
Cabelo, Cabeleiras
Argos, meu afilhado de 16 anos, irrompe cá no estúdio, dia desses, quase irreconhecível, exibindo uma tão arrepiada quanto belicosa cabeleira prata-metálico. Mais parecido com um rockeiro inglês do que com Andy Warhol que fazia dos cabelos descorados uma notação delicada, andrógina, os cabelos de Argos são, antes, de uma beleza agressiva, mutante.
Olho lá atrás – nos anos setenta, não sei se teríamos a coragem de Argos em triunfar pelos salões semelhante look; os cabelos, em nossa condição de hippies incorrigíveis e sistematicamente perseguidos pela polícia, sob o ambiente sanatorial da ditadura militar, mais nos escondiam do que nos expunham; éramos uns tímidos incorrigíveis e parece não fazíamos questão mesmo de que nossas grenhas triunfassem.
Com a canhestra antimoda do ‘‘flower power’’, o que desejávamos, de fato, era contestar todo e qualquer estilo, ainda que fundássemos, por esta via, qualquer coisa assim como um estilo do antiestilo. Mais que tímidos, éramos de uma ingenuidade cheia de unhas.
Não sei se a geração de Argos é ingênua, posto que ingenuidade é vezo adolescente, mas timidez é o que não têm estes meninos nascidos numa democracia, sob o império da televisão e do e-mail, das navegações internautas e do telefone. Indiscutível que vivam num mundo mais amistoso, ainda que a Aids e a ressurreição de obscurantismos ancestrais (como prova o proliferante neo-nazismo deste final de milênio) constituam formidáveis barreiras, o osso de seu tempo.
A propósito de cabelos, tidos por místicos e esotéricos como bio-antenas de não desprezível potência, vale lembrar o que deles guarda o melhor da ‘‘memória’’ humana – seja o hebreu errante, poeta de Judá, Ahm’salom, arrastando-os, terrível, pelo deserto, órfão do grande Deus, por tê-los em demasia, exausto de cortá-los e sofrer que renasçam, sujos de si e de sua humanidade, ao desvalido Sansão, falto de suas gadelhas, cabeleiras sugerem contar sempre uma história de alusões e metáforas.
Mais que elas, só os narizes – do de Cyrano de Bergerac ao nariz de Pinocchio crescendo a cada mentira. Inscrita na mitologia helênica quem há de descuidar da Medusa que, por cabelos, sustentava sobre a cabeça um florilégio de trêfegas serpentes, mesmo porque, naquelos hirtos tempos, e os compiladores de lendas não nos deixam mentir, para cada cabeça, uma sentença; o que, de certo modo, continua valendo, se bem, em nossos dias, as serpentes ganhem em concretude e percam em visibilidade...
O que é outro assunto, mais para ética do que para estilo. Em recente ensaio do crítico e poeta uruguaio Roberto Echavarren sobre a arte andrógina (‘‘El Arte Andrógino’’, Ensayos de Punta, Buenos Aires, 1999), não poderiam ficar de fora cabelos & cabeleiras, com, entre outras, a arrepiante informação do assassinato de dezenas de jovens, pela sinistra, e de certo modo recente, ditadura uruguaia, baixo o motivo banal de passearem, nas ruas de Montevidéu, ‘‘pelos longos’’.
Um tempo em que falar de árvores era quase crime, gadelhas e gadelhudos constituíam formidável ameaça. Sou desse tempo. Não que nos levassem em conta; o fato, bem cru, é que, com nossas jubas, não nos engoliam. Fácil humilhar-nos raspando-as a zero nas delegacias e depois nos jogando de volta à rua, cães de açoite.
Sei que contar isto para Argos, meu afilhado, é remeter a um tempo tão sem referência ‘‘prática’’, digamos, que acaba uma dessas épocas ‘‘abstratas’’, vazias de um sentido, a ‘‘abolição da escravatura’’, por exemplo, ou como o mundo em que vive o técnico de futebol que excluiu o goleiro por posar nu para uma revista.
‘‘Pô, padrinho, o técnico tem mais de 50 anos! Um dinossauro...’’. Frente a um esfuziante afilhado de cabelo prata-metálico, eu, de gorro, estupefato e mais que cinquentenário, afundado na poltrona concordo: ‘‘É, entendo... Tem toda razão... Um dinossauro...’’

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