CABEÇAS VÃO ROLAR
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Os discípulos do insólito e do bizarro podem respirar aliviados e entrar na fila. Ausente dos sets desde 97, quando literalmente detonou a Terra com a comédia Marte Ataca!, o mais esquisito dos cineastas americanos vivos e em atividade está de volta. A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação nesta página), é puro Tim Burton. Quem curte na memória a filmografia impressionista do diretor, a começar pelo pesadelo dark chamado Batman, passando pelo pesadelo lírico de Edward Mãos de Tesoura e desaguando no pesadelo histriônico de Marte Ataca! , não perdeu por esperar. O retorno de Burton tem tudo para não decepcionar os caçadores de cult.
Baseado no conto The Legend of Sleepy Hollow, de Washington Irving, um clássico popular do século 18, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é misto de suspense, horror e romance. Pode ser considerado ainda uma espécie de conto de fadas com tintas góticas. Nesta adaptação conduzida por Burton, Ichabod Crane (Johnny Depp) é um investigador chamado a Nova York para tentar resolver uma série de crimes ocorridos na área. Todas as vítimas são decapitadas pelo assassino. Os habitantes da cidade afirmam que os crimes - por causa do método brutal e sanguinário - são obra do fantasma do Cavaleiro Sem Cabeça. Crane, é claro, nem por um momento acredita na espectral possibilidade. Mas em breve ele vai descobrir a verdade. E cabeças vão rolar...
Quando o acalentado projeto de realizar a sua versão do Superman não decolou, há mais ou menos dois anos, Tim Burton somente conseguiu sair da depressão quando leu um roteiro que recebeu. O efeito, segundo o cineasta, foi o de ter restaurado os super-poderes criativos. Para narrar esta história, o diretor de Ed Wood misturou seu estilo visualmente idiossincrático com aquele dos estudios Hammer, anos 50/60 - cenários pintados, personagens ambíguos e até a presença de Christopher Lee. E chamou Johnny Depp pela terceira vez - Mãos de Tesoura e Ed Wood, as duas outras. O ator, de acordo com a definição de Burton, faz um policial excêntrico e com aparência de espantalho . O contraponto romântico é vivido por Cristina Ricci, no papel da melodramática filha de um rico habitante da cidade. E outro intérprete de relevância, segundo a atriz, é o fog. Toneladas de fog, denso, pesado, impenetrável, podendo ser cortado com um faca, brinca a atriz de O Oposto do Sexo.
Filmado quase inteiramente na Inglaterra, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça tem o ponto alto em sua concepção visual. Burton incentivou seus colaboradores mais diretos - diretor de fotografia, desenhista de produção, figurinista - a verem com atenção filmes como A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, os trabalhos do italiano Mario Bava e todos, absolutamente todos os filmes de horror disponíveis da era Hammer. Eram belos, aqueles filmes. Eles de fato tinham arte, eram a minha espécie favorita de filmes.
Ainda no elenco de A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça estão Miranda Richardson, Christopher Walken, Casper Van Dien, Michael Gambon. Quem assina a música para Burton mais uma vez é Danny Elfman, alguém capaz de preencher com impecável funcionalidade as imagens sempre rebuscadas de Burton. A crítica americana, embora sem apontar nenhuma restrição que comprometa o resultado final, não foi particularmente eufórica diante de Sleepy Hollow. Elogios para brilho pictórico do filme e nariz torcido para o efeito gore, isto é, o excesso de cabeças cortadas.





