Londrina, PR, 14 (AE) - A ambientação do Cabaré, um galpão de 5,6 mil metros quadrados totalmente trabalhado como uma grande instalação cenográfica e sonora, onde realizaram-se os shows musicais do Festival Internacional de Londrina, contribuiu na prática para o entendimento do conceito de transcultural, de trânsito entre diversos públicos e linguagens artísticas, que orientou a concepção da 32.ª edição do Filo, encerrada ontem (13). Na meta dos organizadores, a programação musical não deveria funcionar como um apêndice, mas ser mais uma artéria ligando de forma dinâmica um só organismo, formado por várias artes - o Filo.
Ainda que um espectador desavisado tivesse a intenção de assistir apenas a um dos shows, a simples ida ao local não lhe permitia ignorar a inserção do programa num evento cultural mais amplo. O Cabaré instalou-se numa antiga malharia abandonada que ocupava um espaço total de 12 mil metros quadrados e, como o exterior também recebeu tratamento artístico, chegar até o galpão implicava passar pela sonora bocarra de um dragão, ladeada de velhos e intrigantes suportes de cartão-de-ponto.
"O mote da instalação é a travessia do milênio rumo ao festival de todas as artes", explica Fernando Jacon, diretor técnico do festival e idealizador da ambientação. Se numa casa de shows o palco é o único foco de atenção, no Cabaré era um elemento a mais. Bar, restaurante, pista de dança, mesas de sinuca, uma área de descanso cheia de aconchegantes sofás e muitas instalações atraíam a curiosidade do público.
Concebido como work in progress, o Cabaré abrigava ainda a oficina onde cerca de cem pessoas trabalhavam constantemente na construção de esculturas. Brincadeiras como atravessar em ziguezague a floresta de bambus - uma instalação na qual bambus pendiam do teto e chocavam-se ao toque das pessoas, provocando sonoridades - uniam-se ao jogo de descobrir, a cada noite, o que de novo havia para ver. No fim da semana surgiu, pendurado no teto entre as enormes pipas coloridas - símbolo do festival - um dançante esqueleto de dinossauro em madeira. No chão, pintado em branco, sua identificação: Filossaurus Trans. O que ele tinha a ver com a travessia do milênio? "É um jogo, tirem suas conclusões", brincou Jacon.
O cenógrafo Jacon não criou sozinho. "O mais importante foi encontrar os parceiros certos e fui feliz nisso: a partir daí, tudo fluiu". Os espanhóis Quique Alcântara, Carlos Guardis e Toni Dasquens, integrantes do grupo de teatro de rua de Barcelona Camaleó/Artistas, foram os principais parceiros. Outro foi o alemão Peter Dultgen, engenheiro de instalações da Traveling Tech et Art. E ainda o músico brasileiro Livio Tragtenberg, criador das instalações sonoras. "Cheguei aqui pensando que fosse tocar, não trouxe nem computador e, de repente, me vi com um gravador registrando o som do chuveiro no hotel", contou o músico. O som de água correndo "saía" de uma das instalações.
No banheiro feminino, ouvia-se uma voz que contava até 1999 e, nos sofás, sussuros como "estou voando". Tudo criação de Tragtenberg que já garantiu estar em Londrina no ano 2000.
Nem todos interagiam com o espaço. Surpreendentemente, o público que melhor explorou o Cabaré foram os fãs da banda Racionais MCs, em sua maioria jovens negros da periferia, a chamada "Londrina invisível". Chegaram em grupos, de ônibus, dando folga aos flanelinhas que, a cada noite, cercavam o local. Curiosos, examinaram cada uma das instalações e deram um show à parte batucando numa delas. "Foi genial, ela estava ali o tempo todo pedindo interação, mas só eles ousaram", comemorou Jacon.

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