Não existe criação sem tradição que a nutra, assim como não existe tradição sem criação que a renove. O grupo Cordel do Fogo Encantado surgiu há oito anos fecundando-se entre os dois pólos. Para muitos, é a grande revelação da cena musical pernambucana desde Chico Science.
Depois de conquistar crítica e público com seu CD de estréia, o grupo chega hoje a Londrina como uma das atrações do Cabaré do Filo (Festival Internacional de Teatro de Londrina). O show começa às 23 horas. Na bagagem, traz as canções do primeiro disco e cinco composições inéditas – entre elas, ‘‘Anjos Caídos’’, incluída na trilha sonora do filme ‘‘Deus é Brasileiro’’, de Cacá Diegues.
O trabalho do grupo é calcado na poesia e nas batidas percussivas. O pulso é o da invenção. ‘‘Eu queria que o Cordel fosse um grupo de criação e não de reprodução de sons existentes. Não queria ser uma vitrine de exposição folclórica, nem um desfile de ritmos tradicionais’’ – reivindica o vocalista e letrista Lirinha.
Segundo ele, o grupo está em fase de transição. ‘‘Vamos mostrar um espetáculo intermediário’’ – diz. ‘‘O show que vínhamos apresentando tinha um roteiro definido, baseado na história contada pela sequência das faixas do CD. Agora, estamos introduzindo elementos novos para a criação do próximo espetáculo. Além das novas músicas, já temos um novo cenário e uma nova iluminação. E a iluminação foge do convencional no show bizz, seguindo uma lógica teatral: ela cria climas, sensações e muda de acordo com as situações’’.
A preocupação com a montagem revela a origem teatral do grupo que, antes de despontar como banda, circulava pelo interior de Pernamubuco como uma trupe mambembe. Há dois anos, fixaram a formação com Lirinha, Clayton Barros, Emerson Calado, Rafa Almeida e Nêgo Henrique. Morando hoje em São Paulo, os músicos demoraram para sair de Arcoverde, cidade de 70 mil habitantes e que fica a 270 quilômetros de Recife.
‘‘As metrópoles têm as costas voltadas para o interior. Quem mora no interior recebe informações, mas não consegue mandar as mensagens. Não há dialética, não há intercâmbio. Há um muro invisível’’ – salienta o vocalista. Por isso, ele não poupa elogios ao movimento mangue beat, capitaneado por Chico Science & Nação Zumbi e o Mundo Livre S/A no início da década de 90: ‘‘O Cordel não fez parte do movimento, nem traz influências diretas daquele pessoal. Mas sem eles, talvez não teríamos chegado a Recife e de Recife para o resto do mundo. Eles abriram muitas portas para todos os que vieram depois. O discurso sobre a diversidade, promovido pelo movimento, é uma referência para todos nós’’.
Ao se mudarem para a Capital do Estado, viram a fama crescer de boca em boca até chamar a atenção da mídia do eixo Rio-SP. Na época, conheceram o percussionsita Naná Vasconcelos, responsável pela produção do CD e com quem tocaram em vários shows. Em pouco tempo, já estavam excursionando pela Europa. O disco foi gravado pelo selo independente Rec Beat e contou com a participação de não-músicos, como familiares e crianças de Arcoverde. No ano passado, participaram do Free Jazz Festival e foram eleitos o ‘‘grupo-revelação’’ pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Já pensando no próximo espetáculo, Lirinha lembra que a concepção sofreu uma reviravolta com os atentados terroristas de 11 de setembro em Nova York. ‘‘O tema seria a guerra, o fim do mundo, mas aqueles acontecimentos modificaram tudo. Decidimos não tocar no assunto, embora não houvesse nenhuma referência ao Afeganistão. Talvez abordemos o tema do palhaço de circo sem futuro, utilizando-o como uma metáfora. Mas isso ainda não está definido’’.
O Cordel do Fogo Encantado sobe ao palco às 23 horas. Em seguida, o público confere as apresentações dos grupo locais Etnia e Tribo da Lua. A programação musical do Filo prossegue com shows de Thaide (amanhã), Ana Carolina (segunda-feira), Nando Reis (terça), Funk como le Gusta (quarta), Lenine (quinta), Tribo de Jah (sexta) e Beth Carvalho (sábado).
Serviço
Show do Cordel do Fogo Encantado. Hoje: 23 horas. Local: Cabaré do Filo (Centro de Eventos Maracaju, esquina das avenidas Tiradentes e Arthur Thomas). Convites antecipados: R$ 10,00 - Casa de Cultura - Praça 1º de maio, 118. Informações: www.filo.art.br / [email protected]. Tel/fax: 55 43 324-8694/322-5210.

mockup