Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Ingredientes certos
Vou falar sobre festas novamente porque tenho know-how de sobra neste assunto. Já fui a todo tipo de evento, dos mais animados àqueles que espero dar meia hora para sumir de vez. E toda festa deve ou deveria ter alguns ingredientes importantes para render comentários positivos. É tão chato uma anfitriã se esmerar ao máximo e depois ficar sabendo que a festa foi um fracasso. Mesmo porque, todo mundo que recebe acha que está fazendo o melhor dentro de suas possibilidades.
Primeiro que o local deve ter um espaço razoavelmente bom para os convidados não ficarem espremidos sem direito a segurar um copo, dar um espirro, mudar de posição. E claro, deve-se ter cadeiras ou bancos para as pessoas sentarem. Coisa mais incômoda você ter que ficar em pé o tempo todo, principalmente depois da maratona diária, quando você quer mais é relaxar.
Bebida e comida são imprescindíveis. E de preferência bebida boa, não aquele vinho ou uísque que no day after dão a sensação de que o inferno é aqui. E claro, tudo na temperatura certa. Gelo para o uísque não deve faltar em hipótese alguma. Já fui a festas em que alguns convidados tiveram que se contentar com uma única pedra boiando no copo. Que horror. Melhor então servir só água e refrigerante.
Comida, pelo menos para mim, é cada vez menos importante. Eu não vou a festas para comer, mas também ficar no seco, sem um tira-gosto não dá. Se não for possível um jantar, pelo menos uma mesa arrumada - e farta - com pãezinhos, frios, queijos e canapés é uma excelente idéia. Cada um come na hora que quiser, se serve e deixa a dona da festa mais à vontade. E claro, tem o lado econômico da coisa, já que os níqueis andam sumidos do pedaço.
Gente que fala demais também cansa. Nas festas animadas, o mais gostoso é conversar com um, com outro, e fugir dos bicões - aquele tipo de gente que nunca é convidado, mas que adora festar, comer, beber e dançar por conta dos outros. Gente deprimida também não dá para aguentar. Quando começa a lamuriação do meu lado, eu corro. Festa é feita para espairecer, dar risada, levantar o astral. Caso contrário, melhor ficar em casa de chinelo e pijama, assistindo a uma boa fita de vídeo. E poupar os ouvidos de outros.
Não sei dançar, mas adoro ver casais dançando, principalmente quando dão espetáculo. No bom sentido, é claro. Dançam com aquela leveza, com aquele porte, sem errar um passo.
Música nunca deve ser alta demais, como sempre acontece na maioria dos casamentos. É horrível ter que gritar, o tempo todo, para ser escutado. Muita gente acaba indo embora mais cedo das festas - inclusive eu - porque simplesmente não suporta a altura do som. E quem está a fim de conversar? Impossível. Também não precisa ser aquele fundinho musical desanimado de consultório médico, que da mesma maneira motiva os convidados a pegar o rumo da casa e dormir.
Um bom anfitrião sabe a medida certa para tudo. Inclusive na hora de fazer o que eu considero mais difícil: a lista de convidados. Porque sempre dá confusão.
Se você está numa fase em que não precisa fazer contas e conferir canhoto de cheque, maravilha. Economia de gente - e de tudo mais - não vai acontecer na sua festa. E o que é melhor, vai poder convidar pessoas de vários segmentos e de todos os tipos.
Uma roda eclética é sempre mais animada e dá vazão a todo tipo de assunto. E gente que tira a noite para comentar sobre a saia de 10 centímetros de uma ou do decote no umbigo de outra, melhor ficar de escanteio. Porque tem mulher e homem que só vão às festas para fazer comentários insólitos e de mau gosto. E o que é pior, comem, se fartam e saem falando mal. E quem também está mais a fim de um belo apronto para roubar a cena, deve ficar em casa. Mulher a fim de paquerar todos os homens da festa - incluindo os casadíssimos - ou vice-versa deve baixar em outro barraco. E aprender a respeitar a casa dos outros.
Sempre digo que receber bem é uma arte. E tenho amigas que dão exemplo. Cada vez que recebo um convite delas, é um prazer porque me sinto à vontade, bem-vinda, cercada de carinho. Muitas vezes são festas sem o menor requinte, mas que te dão sensação de bem-estar, sem aquela sofisticação toda que te deixa agoniada, com medo até de mudar de posição.
Estas, eu prefiro evitar porque me dão torcicolo, emudeço e passo por antipática. Melhor ficar em casa.
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