Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Tem gente chata neste mundo. Como tem. E o pior de todos os chatos é aquele conhecido como professor de Deus, que sabe e entende de tudo, que vira-e-mexe, destramela a língua para discursar sobre tudo e todas. Pode chover canivete aberto, que uns e outros não admitem um erro. E o que é pior, passam a vida batendo na mesma tecla: estão sempre certos.
Pessoas que nunca admitem errar são cabeças-duras
e passam a vida aprontando sem parar. E mesmo que algumas vezes saibam que estão completamente erradas, preferem morrer a admitir isto.
Todo chato metido a saber de tudo adora contar histórias longas, não deixando ninguém mais falar na roda. É sempre o maioral, entende de cibernética a astrologia, finge dominar qualquer assunto e não costuma escutar ninguém. Os conhecidos professores de Deus são egocêntricos, pedantes e não têm nada de modestos. Mas também são sempre jogados de escanteio. Quem suporta uma pessoa dona da verdade, que faz questão de ressaltar que tudo dela é melhor?
Admiro quando alguém assume um erro, ou admite não entender sobre qualquer assunto. Eu, pelo menos, conto nos dedos quem toma uma atitude destas. Desculpar-se por qualquer motivo é uma atitude muito nobre. E quem tem a mania de conjugar o verbo na primeira pessoa o tempo todo, ou dar pinta de que é o conhecedor do mundo, deveria se consultar com um analista.
Quando me sinto mais por fora do que mão de afogado, não tenho vergonha de expor minha total desinformação. Não nasci sabendo tudo e vou passar a vida aprendendo. E quando erro, um simples pedido de desculpas me faz sentir melhor. Na verdade, um pedido de desculpas remove montanhas, dá fim a uma situação mal resolvida, esclarece um montão de coisas, deixa a gente com o coração leve. Mas, para isso, precisamos ter humildade suficiente para reconhecer que erramos. Nem que o pedido saia engasgado, abafado. O importante é reconhecermos que não somos os maiorais e que erramos frequentemente.
E é claro que existem os professores de Deus que são radicais em suas opiniões. E como eu já escrevi, morrem assim. Até sabem que estão errados, mas não admitem. Parece ser uma questão de honra.
Teve um tempo na minha vida que, mesmo tendo a convicção de que estava certa, acabava concordando com uns e outros - os professores de Deus - só para não discutir. Mas ficava engasgada com aquilo. Hoje, não entrego os pontos tão fácil assim. E brigo pelo meu ponto de vista. Volto a escrever que nada é pior do que topar com gente que, mesmo estando cara a cara com o erro, não admite que pisou na bola. E feio.
Errar todo mundo erra. Por várias vezes troquei datas, nomes, sobrenomes. Acontece. Mas sou capaz de me desculpar, não me sinto nem mais nem menos capaz por causa disso. Afinal, ninguém erra porque quer.
Estou sempre esbarrando em gente assim. Tenho até alguns amigos que estão na relação dos sabe-tudo. São cabeças-duras, teimosos e estão sempre sozinhos. Porque argumentar e conversar com eles é impossível. É total perda de tempo. E também acho um pouca de falta de vergonha, o responsável pelo engano repassar a culpa para o outro, como já presenciei. Querendo tirar assim a responsabilidade das costas e deixar o coitado queimando vivo. Coisa mais feia.
Gente que sabe de tudo, que se julga sempre melhor do que os outros, deveria se enclausurar num mosteiro, numa ilha deserta e dar folga para nós, pobres mortais, capazes de errar - e aprender - mil vezes ao dia, com a Graça de Deus.





