Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Levar a vida com bom humor, com menos seriedade, desfrutar das coisas simples que ela oferece e ser menos exigente com as pessoas e consigo mesmo. Eu adoraria ser assim e fazer de tudo isso regra de vida. Mas no emaranhado de situações e dos problemas do dia-a-dia, tentar levar a vida na flauta ou com um pouco mais de relaxo é utopia. Só no Tibet, junto aos monges de Dalai Lama. E olhe lá. Mas aos poucos e com determinação a gente consegue descomplicar a vida.
Hoje já se sabe que uma vida feliz é um dos fatores para manter o corpo e a mente saudáveis. Descomplicar a rotina dificulta o aparecimento de doenças. Então, por que fazer drama de tudo?
A gente costuma achar que qualidade de vida está diretamente ligada ao prazer material. Todo mundo quer morar bem, ter dinheiro, boa posição social, ter filhos saudáveis e bem criados. Coisas do gênero, que parecem estar cada vez mais distantes da realidade da maioria das pessoas.
Uma amiga costuma dizer que viver cada momento significa matar um leão por dia. Levar o balacobaco mais tranquilamente, para muitos, é quase impossível. Mas à medida que vamos amadurecendo, a busca por uma vida mais plena e tranquila vai se intensificando. E se formos inteligentes, deixamos de escanteio aquilo que antes nos tirava o sono.
Se um problema aflige o coração e a alma, o melhor ainda é um bom descanso. Mesmo que antes de pegar no sono você tenha que levar um lero com o travesseiro. Falando nisto, ainda acho que o lugar ideal para nos encontrarmos com a nossa consciência é o travesseiro. Pelo menos comigo é assim.
Depois de levar muita marretada estou aprendendo a neutralizar a agressividade das pessoas com gentilezas. Não tenho sangue de barata, muito menos vocação para madre superiora mas, hoje, as situações estressantes já não são motivo de tanto abalo. A gente tem que ser vitoriosa em todas as batalhas do dia-a-dia, nem que estas vitórias apenas sejam comprovadas por nós mesmos.
Se alguém te calunia, se tenta te prejudicar de todas as maneiras, se a vida não tem sido muito camarada, se o coração ainda chora a falta daquele que te deixou a ver navios, não entregue os pontos tão facilmente. A solução para a dor e a decepção se resume em levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Às vezes a gente demora para entender isto e sofre feio. Mas depois que aprendemos a lidar com estas situações áá- e na vida elas pintam em cada esquina - a rotina vira suco de groselha, o stress vira café pequeno e gente chata e falsa colocamos pra correr.
Também manter hábitos simples como tomar um chope com os amigos num boteco qualquer pode lavar a alma. Reafirmo que descomplicar a vida é a palavra-chave. E fazer o que se gosta, sem se importar com a opinião alheia, ainda é a melhor saída para tirar das costas aquele peso de se manter sisudo diante da vida. São pequenas atitudes simples como estas - mas preciosas - que vão te fazer feliz.
Dia destes fui jantar na casa de uma amiga que comemorava aniversário. E a comida queimou, literalmente. Ao invés de transformar a situação numa tragédia, ela encomendou pizzas e mandou ver. Todo mundo comeu e se divertiu com o episódio, que em outra casa seria um problemão, uma encrenca tamanha. E que faria a anfitriã arrancar os cabelos. Tudo bobagem.
A propósito, eu adoro jantares que não têm aquela imensidão de pratos, cores, sabores e aromas. E principalmente quando não servem torradinhas com patezinhos, pãezinhos, facas minúsculas, garfinhos, salgadinhos e pastinhas. Tudo muito difícil e chato de se comer. Quanto mais simples, melhor.
Outro exemplo de viver bem eu tive quando viajei com uma prima que transformou o passeio numa história inesquecível. E sabe como? Sem bagagem em excesso. E já que viajar ainda é uma das melhores coisas da vida, por que ter que esquentar tanto a cabeça atrás de carrinho e carregador de malas, bufando nas filas e de olho em tudo com medo de ser roubado, sempre conferindo mala por mala, principalmente em deslocamentos internacionais?
Aprendi mais esta e descompliquei de vez. Hoje não caio em cilada de muitas malas, ficando à beira de um ataque de nervos. Levo pouca roupa e capricho na criatividade. Assim, não tenho bagagem extraviada, passo por elegante e dou aula de praticidade.
Ser menos exigente com a gente é sinal de crescimento interior. Numa viagem vale muito mais se preocupar em conhecer os lugares e desfrutar de tudo o que eles oferecem, do que ficar em dúvida com qual roupa vamos aterrissar no próximo aeroporto.
Na vida a gente deve explorar os altos e curtir os baixos porque até com as invertidas tiramos lições. Levar a vida na boa não significa ser irresponsável. É, sim, estar de bem com ela, não importa o que esteja acontecendo. Quando estamos receptivos e dispostos a viver bem, recebemos de volta coisas boas. E isto é só o que importa.
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