Na minha profissão de colunista dependo tanto do telefone que tive que adotar algumas regras básicas para usá-lo sem neura. Porque, em determinada fase da minha vida, chegava a sonhar que aquela engenhoca de Graham Bell estava tocando na minha orelha. Fui ficando tão dependente do telefone que tudo eu acaba resolvendo através dele. Desde encomendar um buquê de flores e mandar entregar à aniversariante, até comprar sapato e bolsa sem ver, dando as informações necessárias à vendedora. Por telefone passei boa parte do meu tempo encomendando comida fora - só para não sair de casa - e matando as saudades das amigas que não via há muito tempo.
Não satisfeita com a avalanche dos telefonemas diários, comprei um telefone celular para me acompanhar onde quer que fosse. E que teve vida curta já que, ligado, eu não tinha sossego. No trânsito, na ginástica, no supermercado ele tocava e, quando desligado, acabava esquecido em algum caixa de banco ou até mesmo na cadeira de sol do clube. Não tenho mais celular e também não sinto a menor falta. Mas foi necessário algum tempo para eu me desligar totalmente do aparelho e me sentir livre feito um passarinho.
Já no jornal o telefone é indispensável. É o meu companheiro de trabalho mais fiel. Costumo dizer que em telefone de serviço é proibido jogar conversa fora e prolongar o bate-papo. Deve-se ser objetivo e direto. Ficar pendurado no telefone na hora do corre-corre é o fim. Melhor deixar a conversa mole para depois, quando se está deitada no sofá da casa, lixando a unha ou fazendo absolutamente nada.
Uma das piores gafes que eu frequentemente vejo, ou melhor, escuto, é quando alguém do outro lado atende ao telefone, pergunta o seu nome, com quem você quer falar, para em seguida dizer que o dito cujo não está. Fica no ar aquela sensação de que alguém não quis atender ao seu telefonema.
Mas tem pior. Quando você atende ao telefone, a pessoa do outro lado pergunta quem é, manda você aguardar alguns minutos, não se indentifica, coloca a canção ‘‘Pour Elise’’ por dois minutos - intermináveis - e depois passa a ligação para o maior interessado. Um horror.
Cometer gafes não é de forma alguma privilégio de gente sem educação. Muita gente fina também pisa no tomate e dá sua escorregada. Como a que presenciei outro dia, ao visitar uma amiga recém-operada, que se pendurou ao telefone com uma tia e me deixou esperando até a conversinha boa acabar, isto por quase meia hora.
Também engrenar numa conversa sem perguntar se o interlocutor está com tempo à disposição, falar sem ponto e sem vírgula, é de matar. Quando recebo um telefonema e pressinto que quem ligou quer enrolar o tempo com bate-papo sem serventia alguma, aviso que estou sem tempo e que jogar conversa fora só depois da novela. E olhe lá.
Quando se está com pressa, melhor não atender ao telefone e pedir que deixe o recado. A pior coisa é você atender e responder com meias-palavras, no afã de desligar rapidamente, sem dar tempo sequer para a pessoa do outro lado da linha falar o que deseja. É muito chato ser atendida assim por qualquer pessoa, dá a nítida impressão que alguma coisa foi interrompida ou que o telefonema não foi bem-vindo. Muitas vezes uma atitude dessas é suficiente para estragar uma amizade ou acabar um romance. Melhor ser franco, se desculpar e devolver a ligação numa hora mais própria.
Ligar para a casa de qualquer pessoa antes das 9 horas da manhã também não é legal. Ligar no local de serviço é uma coisa, mas para outro lugar é afrontar a privacidade, quando é assunto específico de trabalho.
Sou gata escaldada com telefonemas em horas impróprias. E tenho tanto medo de causar mal-estar que até para o médico da família só ligo em último caso. Tem mãe que gasta mais com conta de telefone de tanto ligar - e quase enlouquecer o pediatra - do que com a própria receita de remédios. E se liga, e o médico está em consulta, não é capaz de esperar alguns minutos. Vai logo soltando aquela grosseria para cima da secretária julgando-se a única mãe com filho doente do planeta.
Retornar as ligações também é de bom-tom. Sei que ando pisando na bola em relação a esse item. Por puro esquecimento, nunca por falta de vontade ou de propósito. Mas é importante devolver qualquer telefonema.
Tem gente que não gosta de emprestar o celular. Então, não peça. E carregar celular ligado para o cinema ou para o teatro dispensa qualquer comentário. Isto sim, é gafe seriíssima.
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