Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
No lugar do outro
Quantas vezes você já disse ou pensou: ‘‘Eu, no lugar dela, faria de outra maneira’’, ou ‘‘Não tenho nada com isso, mas teria agido diferente’’. Eu mesma já perdi a conta de quantas vezes já fiz estas afirmações. E vez ou outra estou fazendo comentários, aleatoriamente, sem pensar mais seriamente no assunto.
Costumamos julgar correta a atitude de outra pessoa quando ela age exatamente da forma que nós agiríamos. E o que é pior, se ela age diferente nunca levamos em conta uma série de fatores que fizeram com que a tal pessoa agisse daquela maneira. E quem somos nós para julgar?
A gente sempre acha que está com a razão. E às vezes não está não. Durante a Copa do Mundo, eu, que entendo de futebol tanto quanto de cibernética - ou seja, absolutamente nada - escutei que o Zagallo fez uma escalação errada, que o homem é teimoso, que já deveria estar de pijama e chinelo. Zagallo, de tão irritado, chegou a mandar um recado para a nação: de que todos nós, sem exceção, teríamos que engoli-lo. Gostando dele ou não. Se tudo o que ele fez até agora na Copa vai na contramão do que pensa a maioria do torcedores brasileiros, é porque alguma razão este teimoso deve ter. Costumamos fazer juízo a respeito de situações que jamais vamos vivenciar. E nos gabamos ao achar que sabemos mais. Se Zagallo tinha razão ou não, a verdade é que estamos na final. Quase embolsando o penta.
Tenho que admitir. Toda vez que alguém não age de acordo com aquilo que eu supostamente faria no lugar dele, fico decepcionada. Mesmo que aquilo nada venha a me acrescentar. A vontade de que a minha posição prevaleça sempre grita mais alto. Fico achando que as minhas convicções são as mais corretas, quando muitas vezes não são.
Com o tempo vamos entendendo que somos diferentes uns dos outros. Conviver e aceitar isto numa boa é complicado porque a tendência de nos julgarmos certos sempre prevalece, pelo menos intimamente.
Quando nos decepcionamos com a atitude de outras pessoas, quando sabemos que agiríamos de forma completamente diferente, a frustração é ainda maior. A gente precisa aprender que não se deve esperar nada de ninguém. Eu penso de uma forma, você pensa de outra. Chegamos mesmo a ser meio solitários em relação a isto porque a coisa mais difícil é encontrar um denominador comum. Você pode conviver anos a fio com uma pessoa, e em dado momento ela pode te surpreender, causando a maior decepção.
É certo. Sempre vai haver pontos de vista diferentes, interpretações equivocadas, diferenças entre as pessoas. E antes de lançarmos farpas do tipo ‘‘eu agiria completamente diferente’’, deveríamos sim, nos colocarmos no lugar do outro. Ou pelo menos tentar enxergar com outros olhos, de maneira mais objetiva e mais imparcial.
Quando eu me coloco no lugar do outro, meu ponto de vista e meu código de valores começam a tomar outras formas. E acabo ficando com aquela sensação de que fui precipitada ao fazer determinado comentário.
Você já percebeu que algumas posições contrárias as nossas são suficientes para desfilarmos uma imensidão de idéias e opiniões? Mas quem já esteve no lugar da outra pessoa, comendo um saco de sal, vivenciando coisas que a gente nem sequer imagina como aconteceram?
É aquele velho ditado: ‘‘Pimenta nos olhos dos outros é refresco’’. Então, julgar as atitudes de quem quer que seja - e do lado de fora - é muito fácil. Criticar, então, é coisa mole. Só quando determinadas situações pintam na nossa vida, da maneira mais inesperada possível, é que olhamos para trás e enxergamos quanta bobagem foi dita.
Ainda acho que a maior virtude de uma pessoa é o senso crítico. E existem pessoas que não saem por aí julgando ninguém a torto e a direito. Porque se colocam na mesma situação.
Com a maturidade vamos entendendo mais as atitudes dos outros. O que pareceria um absurdo tempos atrás, hoje é encarado de outra forma.
Uma coisa é certa: antes mesmo de fazer comentários sem fundamento e descer a lenha, a gente deveria ter como regra de vida pensar, analisar e não julgar ninguém. E não correr o risco de morrer pela boca.
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