Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Tem gente que leva uma sorte danada na vida. Tem tudo de mão beijada, não precisa batalhar e, o que é melhor, não precisa esperar por nada. Tudo acontece na hora em que ela quer e no momento mais propício. Sempre digo que a melhor coisa do mundo é não ter que esperar. Por ninguém e por nada.
Não sei se é porque sempre tive que esperar com muita paciência pelas coisas que hoje me são valiosas - para comprar um apartamento, trocar de carro e até para perder aqueles quilinhos extras - que vez ou outra tenho aquela vontade súbita de ter tudo à mão. Sempre estou vendo gente gozar deste privilégio injustamente. Gente que teve tudo caído do céu sem nunca ter movido um dedo sequer. E que não dá o devido valor. Mas isso é assunto para outra crônica.
A gente passa a vida esperando pelo final de semana, por aquela festa, pelo dinheiro que vai resolver a conta no banco, para ser sorteada no consórcio, pelo grande amor, pelo Carnaval, pelas férias que não chegam, pelo gol do Ronaldinho que não acontece, pela empregada que não aparece.
Esperamos durante nove meses, pacientemente, o nascimento do filho. Depois contamos os dias para ele dar os primeiros passos. Aí não vemos a hora de ele ir para a escola, cursar a universidade, se especializar no Exterior. Aí o filho casa, às vezes se muda de cidade ou de país, e depois passamos a vida esperando pela visita dele.
A gente sabe que para esperar é importante ter paciência. E você consegue ser paciente numa fila de banco, quilométrica, quando os ponteiros do relógio indicam que está na hora de buscar os filhos na escola? Ou então ser a rainha da paciência, com a casa dos seus sonhos pronta e ter que aguardar para comprar lustres e cortinas? Ou pior, ter que esperar e adiar pela terceira vez aquela viagem maravilhosa já que a bufunfa não dá?
Esperar sempre e para tudo já faz parte da vida da gente. Quando alguma coisa é resolvida de imediato até me assusto. E fico desconfiada.
É o que acontece quando o encanador aparece no dia e na hora marcados. O mesmo quando o telefone dá linha, do outro lado a secretária atende e me coloca rapidamente em contato com o médico das crianças. Se a hora marcada no cabeleireiro é respeitada, imagino que há algo errado. E até fila de cinema que anda rápido demais causa estranheza.
Conheço gente que, de tão impaciente e sem a menor vocação para esperar, dispensou carro - para não ficar entalada no trânsito - anda a pé e aconselha todo mundo a fazer o mesmo. Também não compra um objeto, caso a loja não tenha pronta entrega. Mesmo porque a maioria das lojas promete que em tantos dias a compra chega, mas a gente sabe que isso não acontece. E passa a maior raiva. O jeito é reclamar e esperar. Fazer o quê?
Minha filha passa o tempo todo sonhando e esperando que Leonardo DiCaprio responda aos seus e-mails. Meu filho, aos 7 anos, espera ansioso para completar 10 anos e conhecer a Disney. E por aí afora. Eu continuo a esperar por aquela viagem ao Oriente, adiada pela segunda vez.
Tem gente que passa a vida esperando pela herança que vai chegar um dia. Não faz absolutamente nada na vida. Só sonha com a grana alta que vai embolsar. Nem que seja aos 60 anos de idade. E espera pacientemente.
Tem uns e outros que esperam um emprego cair do céu ou, quem sabe, alguém bater à porta da casa e oferecer um cargo de alto nível. Daqueles que a gente espera a vida toda, dando o maior duro e mostrando serviço o tempo todo.
E tem coisa bem pior. Gente que espera ganhar na Loto e virar milionária. Tem certeza de que um dia, não importa quanto, a sorte lhe sorrirá. E leva a vida assim, apostando todas as fichas. E morre pobre.
É claro que existem os privilegiados que não esperam nada e têm todo tipo de vantagem. Fila? Nunca esteve em nenhuma. Uma legião de secretários faz isso por eles. Que maravilha.
Ao viajar, os mais privilegiados vão de primeira classe, of course. E claro, não precisam esperar na fila de embarque. São os primeiros a se acomodar. Mas também, na hora de pegar as malas, são obrigados a esperar como qualquer mortal. Ou melhor, como qualquer passageiro que viajou no fundão, apertadinho, pagando em 12 vezes a classe econômica. Nestas horas, esperar é a palavra de ordem. E quando a mala é extraviada, o jeito é amargar a espera de dias e dias, correndo o risco de recebê-la quem nem geladeira na véspera de pagamento. Completamente vazia.
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