Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Quem nunca conviveu na vida com um ansioso? Daqueles bem terríveis, que não conseguem esperar por nada, que às 7 horas da manhã já estão ligando para o encanador, que são capazes de esmiuçar todas as lojas de decoração da cidade antes mesmo de comprar o novo apartamento, ou que tocam a campainha da sua casa 20 minutos antes da festa começar? Quem nunca cruzou com uma pessoa dessas, que não consegue conversar tranquila durante 10 minutos, que usa o celular de cinco em cinco minutos, ou é capaz de ligar para o médico 20 vezes antes dos resultados dos exames estarem prontos?
No primeiro jogo do Brasil na Copa, um ansioso quase matou toda a torcida no almoço organizado por uma amiga minha, que resolveu reunir 15 casais para comemorar e torcer.
É claro que o torcedor ansioso não conseguiu ficar com a tramela fechada um minuto sequer. Mesmo naquelas horinhas em que todo mundo rói a unha, não pisca e reza. O ansioso aguentou cara feia dos torcedores, indiretas para fazer um pouco de silêncio, mas não estava nem aí. Mesmo porque a ansiedade produz alguma coisa no ser humano que não o deixa relaxar dois segundos.
O ansioso não deu folga: levantou, sentou, andou, falou, comentou o drible, xingou o adversário, adivinhou o resultado, elogiou o passe do Ronaldinho, lamentou a falta do Romário, odiou o Zagallo, chorou por não estar na França acompanhando os jogos e enlouquecendo a cada partida. Porque o ansioso sofre antes, durante e depois de cada jogo.
Antes, porque dorme mal e só fala no assunto. Durante, porque ele quer que o jogo termine nos primeiros 10 minutos, e, depois, porque já pensa na próxima partida e, consequentemente, nas próximas horas que vai estar com a adrenalina a mil.
Mulher ansiosa também é jogo duro. Quando gorda, fica tão ansiosa para emagrecer que engorda o dobro. Tem todos os regimes fixados na porta da geladeira, mas nada disso vale. A ansiedade faz com que ela devore uma caixa de inteirinha de bombons numa sentada.
E quando vai sair? Tenho uma amiga que de tão ansiosa escolhe a roupa do próximo sábado na segunda-feira. Espalha o guarda-roupa na cama e sofre durante toda a semana, imaginando que nada daquilo vai combinar com a festa. Por dias, remói aquela sensação. Mas pode Jesus dizer que qualquer roupa vai cair muito bem para a ocasião que não a convence. O mesmo acontece com os sapatos, com a bolsa, com o penteado... E por aí afora.
Esta minha amiga começa a planejar as férias da família um ano antes, quando acaba de chegar das últimas férias escolares. Passada a primeira semana em casa, começa a idealizar o lugar em que vai aterrissar com a prole dali a exatos 12 meses. E corre para o telefone, liga para as agências de viagem, quer saber dos pacotes turísticos, financiamentos, hotéis. E não contente, liga para a companhia aérea e quer fazer reserva. Do outro lado da linha, atônito, o agente de viagem questiona a razão de tanta pressa, afinal, pode ser até que a viagem nem aconteça. Que absurdo, pensa ela.
E quando o ansioso resolve construir uma casa. Enlouquece a mulher, os filhos, o arquiteto, o engenheiro, o mestre de obras e os pedreiros. Porque ele quer tudo para ontem.
Com a casa ainda projetada no papel, o ansioso começa a fazer a lista de prioridades para saber o que vai comprar primeiro. Ou então, qual eletrodoméstico novinho em folha vai estrear o novo chatô que, brincando, brincando, vai demorar uns dois anos para ficar pronto. O ansioso faz tantos planos em torno da nova casa que ela fica velha ainda no terreno.
Afinal, ninguém aguenta mais ouvi-lo falar do empreendimento, de quanto vai gastar, de quantos dormitórios a casa vai ter. O engenheiro responsável pela obra chega a dar dó. A uma certa altura da construção, só deseja fugir para qualquer lugar bem longe daquilo tudo.
Convivendo diariamente com uma pessoa ansiosa é que se dá o devido valor para uma pessoa calma. Daquelas que o mundo pode desabar que a sensatez continua a imperar. Os calmos são considerados pessoas maravilhosas. Tudo está bom ou razoável, sob o lema de que a pressa é inimiga da perfeição.
Já viajei com uma amiga que era a calma em pessoa. E também quase pirei. Eu, que não sou nem tanto ao mar, nem tanto a terra, a cada check-out no hotel, achava que ia perder o próximo vôo. Esta minha amiga cronometrava com uma certa folga o nosso itinerário e sem o menor sinal de desespero. E quando eu, nas raias da loucura, arriscava a pergunta: Mas será que não dá para ser mais rápida? recebia a resposta curta e simples. Não precisa.
E foi assim durante todo tour. Teve um momento da viagem que fiz aquilo que minha companheira rezou o tempo todo: relaxei e curti tudo, sem a menor afobação.
É claro que a convivência entre calmos e ansiosos deve resultar em faísca pra tudo quanto é lado. É difícil imaginar um casal completamente diferente, morando sob o mesmo teto ou fazendo uma viagem juntos. Enquanto um quer ir para o aeroporto com duas horas de antecedência, o outro quer estar lá apenas uma hora antes, como é aconselhado pelas agências de viagem. Enquanto um resolve deixar anotado para os filhos, os nomes de hotéis, respectivos telefones e endereços; o outro desaprova a atitude e diz: Larga mão disso, de lá a gente liga e dá notícias. Pronto. Está declarada a guerra.
O mesmo acontece com as malas. Enquanto o calmo prepara a sua, no dia da viagem e na maior lentidão, a ansiosa já fez a dela uma semana antes, tirando e colocando coisas, fechando e abrindo a frasqueira cada vez que precisa de um creme. Na volta, a mesma cena. A diferença é que as malas retornam bufando. E a ansiosa, contando os segundos para tê-las salvas sobre a sua cama.
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