Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
SEM MEA-CULPA
Estamos juntos
nos momentos
bons e difíceis
Trabalho desde os 16 anos. Por opção pessoal, por livre e espontânea vontade. Sempre achei importante a mulher ganhar seu próprio dinheiro, ser emancipada, escolher seu caminho. E desde a adolescência, antes mesmo de entrar na faculdade, batalhei pelo meu próprio espaço. Trabalhar é algo que só me dá prazer. Não chego a ser uma workaholic, mas não sei o que faria sem as horas sagradas em que passo na redação do jornal, ou sentada à frente do meu computador caseiro onde agora escrevo esta crônica.
Nunca questionei se ter uma vida agitada, deixando casa e filhos vez ou outra de escanteio, vale a pena. Na verdade, nunca senti o mínimo de culpa em relação a isto. Conheço uma porção de mulheres da minha geração que trabalha fora e vive em conflito, se culpando pela situação de não estar presente em todos os momentos da vida dos filhos ou até no dia-a-dia doméstico. Diga-se de passagem, tão bem entregue às secretárias-mor que resolvem o balacobaco instalado.
Meus filhos foram e estão sendo criados conforme o meu projeto de vida, baseado naquilo que me faz feliz, me realiza e que proporciona a eles a atual condição de vida. Nunca me senti mal em ter que deixá-los por causa de alguma viagem de trabalho, por passar mais horas trabalhando do que assistindo à TV em casa, ou mesmo de monitorar de longe suas tarefas. Já deixei de ir a muitas reuniões na escola e de acompanhá-los em festas de aniversário. Mas estamos juntos nos momentos bons e difíceis e sei que podemos contar uns com os outros em qualquer desafio da vida.
Há poucos dias eu conversava com uma leitora que tem quatro filhos, na faixa de 4 a 16 anos. O plano de vida daquela senhora nunca ultrapassou o portão da casa. E foi com a maior sinceridade que ela me afirmou estar realizada, cuidando da prole da hora em que levanta da cama até a hora em que se deita. Sua meta sempre foi acompanhar os filhos, cercando-os de todos os mimos. E o fez com muita competência. Muitas vezes abrir mão de uma profissão ou de um projeto de vida pode ser compensador.
Por outro lado também acho que uma boa mãe não precisa, necessariamente, estar grudada ao filho o dia todo ou monitorando sua vida de manhã à noite. Existem outras formas de se estar presente. E à minha maneira sempre estou. Esta confiança eu passo a eles durante minha jornada de trabalho, que tem hora para começar mas nem sempre termina no horário programado. Na condição de colunista social, saio e viajo muito, porém minha ausência é compensada pela qualidade das horas em que estamos os três juntos, comendo brigadeiro na cozinha ou dividindo o mesmo sofá, a mesma pizza e o mesmo videogame.
Criar filhos é uma tarefa árdua e que nos coloca à prova todos os dias. E para se manter as rédeas da casa, quando se trabalha fora boa parte do dia, pelo menos dois itens são fundamentais: disciplina e confiança.
Aprender a dividir tarefas e fazer respeitar limites são regras básicas na minha casa. E que está longe de ser o retrato da perfeição, mas é território sagrado da boa convivência. Então, todo mundo entra na dança, se vira e não tem como fazer corpo mole.
Dá preguiça ensinar, falar a mesma coisa todos os dias. Mas se não fizermos isto, os bons modos dos filhos vão se diluir no espaço e eles vão se tornar personas non gratas nos almoços de família. Por outro lado, coisa boa é escutar das pessoas o quanto nossos filhos são educados e amorosos. Costumo dizer que um elogio feito a um filho adoça a alma. E a gente fica que não se aguenta.
Sei que em outra situação - a de mãe que não trabalha fora - talvez eu tivesse poupado mais meus filhos, dado a eles a opção de escolher entre querer ou não assumir determinadas funções, de tomar ou não certas atitudes. Mas já que isto não foi possível, prefiro acreditar que faço o melhor por aqueles que vou amar até o dia do Juízo Final.
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