Cá prá nós (Elisiê Peixoto)
Cá prá nós Elisiê PeixotoHomem moderno não divide só a cama
Elisiê Peixoto
Dia destes, depois de marcar um cineminha com uma amiga, tomei o maior furo. Com a chave na porta, pronta para sair, fui avisada via telefone e na última hora - pela própria mancona - que ela não poderia mais me acompanhar por ter que preparar o jantar do marido. Preparar não, porque essa amiga não sabe fritar um ovo, mas, digamos, ajeitar a comidinha no prato, esquentar no microondas, colocar os talheres, guardanapo, servir o suco no copo. Tudo aquilo que dá uma trabalheira danada, é muito complicado e que leva horas para preparar.
Na mais completa inocência, ainda insisti e perguntei se o moço havia machucado as mãos ou se, de repente, tinha sido acometido de uma gripe muito forte que o deixou aniquilado, completamente sem forças, inclusive para comer. Mas não. O marido é daqueles que não se serve sozinho, passa fome mas não mexe um garfo. Aí ela perdeu o cinema - agendado há uma semana - e eu tive que me contentar em assistir pela vigésima vez na TV, Os Embalos de Sábado à Noite, ao invés de ver Brad Pitt em seu mais recente filme rodado no Tibet.
Baseada nesta situação, e a pedidos de algumas leitoras, volto a escrever sobre os homens que não colaboram em nada no serviço de casa, são incapazes de dar uma mãozinha para a esposa, não facilitam a vida da mulher por nada neste mundo. Ao contrário, adoram bagunçar de vez o pedaço.
A melhor definição para homens assim, eu li recentemente num artigo, é ladrões de energia, porque falam deles e do trabalho o tempo todo, reclamam dos gastos, colocam defeito em tudo e estão mesmo a fim de sugar a força vital da mulher. A mesma força que nos mantém vivas e felizes.
Há homens tão egocêntricos, sempre tão voltados para si mesmos, que não enxergam as necessidades da mulher que, com raras exceções, são as mesmas que as deles. Mulher também se cansa do balacobaco diário da casa, dos filhos e da atividade profissional, adora tomar um chopinho com as amigas, curte um cineminha e também gosta de ser servida.
Quem disse que homem não pode ou nunca tem hora para dar uma mãozinha no dia-a-dia doméstico, quando a coisa aperta? Principalmente naquele começo de semana, quando parece que um furacão baixou no seu pedaço, revirando tudo, dos quartos à sala. E o que é pior, quando aquela mão na roda, a secretária de forno e fogão, caiu de cama. Na casa dela, é claro.
Os ladrões de energia costumam exigir, reivindicar, protestar até pela jarra dágua fora da geladeira. Mas também não guardam. Estão sempre cobrando alguma coisa e acham que têm direito a tudo, sem nada dar em troca.
Toda vez que alguma amiga minha está em vias de se casar, aviso: pesquise direitinho se o futuro sócio de cama e mesa é do tipo bagunceiro e folgado. Caso ele se enquadre nessa categoria, e se a futura esposa faz o gênero ordeira, o doce lar com certeza vai se transformar num campo de batalha. No primeiro jantar preparado a dois, entre cebola, alho e beijinhos, quem vai lavar as panelas depois? Pronto, está instalado o balacobaco.
Com certeza há exceções. Conheço poucos homens que colaboram, mas eles existem, sim. Sei de marido de amiga minha que deu muito banho na filha, colocou para dormir e deu mamadeira, enquanto a mulher ia para a faculdade. Se a esposa gosta e se preocupa tanto com o marido, e vice-versa, qual o problema em fazer pequenas divisões de tarefa?
Mulher, com essa mania de resolver tudo e sem muita paciência para esperar, acaba tomando frente e resolvendo aquelas questões caseiras, morta de raiva, mas sempre dando um jeitinho.
Chegar em casa, depois de uma maratona de trabalho, e se deparar com uma mesa de jantar devidamente montada, um bom vinho e a comida preferida esperando para ser servida - tudo preparado por ele - não é cena de filme americano. Pode ser real, se a mulher tiver tido a sorte de encontrar um homem adaptado às necessidades da vida atual, ou se tiver conseguido, com muita perspicácia, mudar as regras do jogo.
Mas, se depois de todos os apelos a camisa suada continuar jogada no chão do closet, os CDs fora da capa e a toalha molhada sobre a cama, o jeito é ameaçar dar as peças de roupa para os mais necessitados e deixar os CDs preferidos servindo de bumerangue para os sobrinhos. Chegou o momento de instalar a democracia familiar. Afinal, os tempos são outros.
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