Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Por favor, não perturbe a mamãe
Dias atrás fui visitar uma amiga que havia dado à luz há 10 dias. E fui determinada a visitá-la no melhor estilo vapt-vupt. Uma visitinha rápida de, no máximo, 30 minutos, o suficiente para entregar o presente, conhecer o herdeiro e dar um abraço nesta mamãe de primeira viagem, que, mal sabe ela, a partir de agora, terá sua vida totalmente reestruturada. Ser mãe é muito bom, mas só quem já é sabe avaliar a responsabilidade.
E mesmo que você tenha passado por esta situação há algum tempo, sempre é bom rememorar para ensinar às filhas: visita a recém-nascido tem que ser rápida. Não é falta de educação, é estar com o ‘‘simancol’’ acionado.
Fiquei com pena desta minha amiga sentada no sofá da sala, amamentando e cercada de cinco tias que falavam ao mesmo tempo, palpitavam sobre a cólica do bebê, sobre o leite que mal descia e por aí afora. Um horror.
Quando parimos, o peito dói, os pontos incomodam, ficamos mais sensíveis a tudo, choramos por qualquer coisa. Além do que, andamos curvadas e mal dormimos à noite porque aquela coisinha linda não permite. O dia é completado por trocas e mais trocas de fraldas e pelo preparo de chá de alface, de camomila, e por tudo mais que receitarem para aliviar as cólicas do filhote e os ouvidos da mamãe. Aquele ser indefeso, no bercinho, tem um pulmão de fazer inveja a qualquer campeão de natação: chora alto para você e o resto do condomínio ouvirem.
Toda mãe, de primeira viagem ou não, sabe que os três primeiros meses de vida do nenê são de amargar. E se não fosse o instinto maternal, poucas mulheres passariam imunes a esta fase de total dedicação.
Dei várias indiretas para o quinteto que visitava esta minha amiga se mandar de vez. As tias já estavam lá há duas horas, tinham acompanhado o banho do herdeiro, a amamentação, a troca de fraldas, o tira e põe no berço. Mas, que nada, estavam a fim mesmo de passar a tarde jogando conversa fora. E fizeram isso sem dó nem piedade.
Quando se tem condições de pagar uma enfermeira, maravilha. Pelo menos para o turno da noite, facilitando a mãe para se reabastecer de energia, sugada por aquele ser indefeso durante todo o dia. Mas quando o dinheiro não dá, o jeito é contar com a ajuda da avó, pelos menos nos primeiros meses. Isto quando ela ainda tem pique para passar a madrugada no corredor, embalando o neto de um lado para outro.
Quando ganhamos bebê, principalmente nas primeiras semanas, o estado emocional e o visual não são dos melhores. Com quilos extras, seios estufados e doloridos, sentando e levantando com toda aquela dificuldade que homem nenhum avalia, duvido qual mulher queira uma visita demorada, daquelas amigas ou parentes muito a fim de conversar, ajudar a trocar o nenê, fazer bilu-bilu, elogiar o quartinho, conferir o enxovalzinho, dar conselhos e, se precisar, até fazer um cafezinho. Gente assim ignora o cansaço e aquele sentimento esquisito que toda recém-mamãe sente.
Por isso, se você está nesta situação tal e qual, dispense qualquer visita nos próximos 15 dias. Abra uma única exceção: para aquela amiga do peito e que certamente será a madrinha de seu anjo.
Mesmo que as tias e primas queiram ver você, peça um tempinho. É muito melhor do que receber sem disposição e com aquela vontade de chorar cada vez que o baby pede colo e comida. E se o papai também resolver convidar os amigos para comemorar, faça o distinto cancelar o convite ou ir brindar em qualquer outro lugar do planeta.
Sossego é a palavra-chave para se manter um astral bom entre a mãe e o filho que ainda não tiveram tempo para se familiarizar. Nada de gente por perto sugando aquelas horinhas em que você poderia estar tirando uma soneca ou simplesmente admirando a obra-prima. A melhor coisa quando se volta do hospital é ficar em casa quietinha, curtindo aquele que você vai amar até o dia do Juízo Final.
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