Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Tragédia no meu dia-a-dia só acontece numa única ocasião. O dia em que a empregada não aparece. Isto eu considero uma tragédia completa na vida de qualquer dona de casa que trabalha fora e depende única e exclusivamente desta senhora para cuidar do balacobaco. No meu caso, que estou fora uma boa parte do dia e que sequer imagino o que vou comer no almoço, ficar sem empregada significa ficar sem rumo e desestruturar minha agenda. Não há dúvida que uma uma boa empregada se transforma no braço direito da patroa que fica parte do dia fora de casa e tem filhos para cuidar. É ela quem dá o apoio e a tranquilidade necessários para manter a rotina doméstica. Mulher que trabalha fora - e mesmo aquela que não trabalha, mas é chofer de filho o dia todo - entra em pânico quando a empregada não aparece. E com toda razão.
Imagine a cena. Um dia antes, à noite, você dá uma olhada geral na sala de televisão. O panorama é desolador. É zona ampla, geral e irrestrita. Cinzeiro recheado de papel de bala, meias e tênis jogados no canto do sofá, fitas de vídeo fora das respectivas caixas, todos os controles remotos espalhados, copos, latas e farelo de bolacha sobre a mesa. Na cozinha, o tapetinho enrolado, a pia com uns dez copos, jarra de suco fora da geladeira. Já é quase meia-noite e você está morta de cansaço. Deixa pra lá. Amanhã bem cedinho, a secretária-mor chega e cuida do balacobaco instalado. Mas, e quando ela não vem?
Nunca fui um exemplo de plena organização, como aquelas mulheres que esticam a colcha da cama o dia inteiro ou colocam em ordem as gavetas de remédios duas vezes por dia. Mas também não deixo a peteca cair. E sempre trabalhando fora, meus filhos tiveram que aprender, ainda pequenos, a organizar - mais ou menos - o próprio território. Aos trancos e barrancos e algumas palmadas.
Até acho que a gente não precisa viver como se estivesse servindo a um exército. Mas manter a casa em ordem facilita a vida, faz bem para a alma e para os olhos.
Sempre achei o máximo uma prima que durante toda a minha adolescência foi citada como o exemplo da família. Coisa mais linda era o armário da dita cuja, com as roupas íntimas alinhadas uma a uma dentro das gavetas - e em tons, dos mais claros aos mais escuros - com o calceiro impecável, camisetas sobrepostas, meias em ordem de cor, roupas penduradas em cabides milimetricamente dispostos. Tudo arrumado e perfumado, sem um fiapo fora do lugar.
Por muitos anos procurei algum detalhe que destronasse a impecável prima, algo de errado dentro daquele guarda-roupa lembrado pela minha mãe cada vez em que ela abria o meu. E que não fugia à regra dos armários de meninas de 15 anos: estava sempre bagunçado. Convenhamos, nesta idade o que menos importa são as gavetas em ordem.
Filha adolescente... esta é uma das inúmeras razões por que ficar um dia sem empregada transforma minha vida num caos. Dependo da Clarice, minha secretária de forno e fogão, para manter a paz reinando na família. Porque é entre copos, pratos e talheres que eu e meus filhos colocamos a conversa em dia. Que chova canivete aberto, caiam raios, mas estamos juntos pelo menos durante uma refeição do dia. É quando falamos sobre as notas do boletim, a conta da locadora de vídeo e até sobre a atuação do teimoso Zagalo. Tudo entre garfadas e garfadas. Um fuzuê bem administrado pelo meu braço direito, é claro.
Uma boa empregada é capaz de encontrar, numa segunda-feira brava e num momento de caos total, o celular da patroa, os tazzos do filho menor e a malha de ginástica da adolescente bagunceira.
Sensação boa é aquela de sentir, logo pela manhã, o aroma de café fresco entrando corredor e quarto adentro. Que nem você e nem eu preparamos. Mas ela - com toda certeza a segunda dona do seu pedaço - está a postos no fogão dando conta do recado. É nestas horas que eu nem me incomodo com o som do radinho de pilha ou com o barulho ensurdecedor da máquina de lavar roupa.
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