Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Sem olhar pra trás
Elisiê Peixoto
Tudo bem que recordar é viver. Mas fazer disso uma regra e alimentar as horas e os dias com eternas recordações já é sintoma de doença. E grave. Tem gente que passa pela vida lembrando os tempos de juventude, revivendo a época de solteiro. E muitos deles, hoje sem dinheiro - ou status - lembrando o tempo em que deitavam e rolavam na bufunfa, que naqueles idos sobrava. Só naqueles tempos... porque hoje, o dito cujo está sempre no bico do urubu. Quase morto de tanto dever e sempre na expectativa de que algo muito bom vai acontecer. Sonhar é bom, relembrar coisas boas alivia a alma, mas depositar todas as fichas nisso é o mesmo que dar um salto no escuro.
Tem gente que depois dos 30 anos resolve rejuvenescer de vez. E, depois de lutar contra os anos acumulados com todas as armas possíveis - desde as mais caseiras até as mais revolucionárias - volta no tempo e começa a ter atitudes de adolescente. Fica tão irresponsável que, se bobear, um dia amanhece com a cara pintada de catapora. E traz à tona tudo aquilo que já viveu e quer que se repita. Como se isso fosse possível.
Quem não gostaria de descobrir uma fórmula que fizesse prolongar a juventude por mais 20 anos? Até eu. Mas é fato, os anos chegam para todo mundo e para não envelhecer só existe um jeito. Não nascer. Mais fácil assumir os 30, 40 ou 50 anos, e tirar deles o que têm de melhor. Só assim, pois não existe formol que dê jeito.
Hoje em dia é comum saber de pessoas que eram ricas e ficaram pobres. O dinheiro sumiu da praça e ficar com a carteira vazia e o saldo negativo no banco anda virando moda. O que na realidade não deveria ser o fim do mundo, mas, para muitos, é como se fosse. Sei de tanta gente que foi até o fundo do poço, se reabasteceu de energias e levantou novamente, enquanto há outros que dormem e acordam relembrando os anos em que somar era a única conta que sabiam e precisavam fazer. Dividir e diminuir são coisas do presente. Gente assim, que vive do passado, não perde a pose nem a arrogância, e morre desse jeito. Completamente boba, sem grana e sozinha. Dinheiro e poder não significam felicidade. Esta, sim, pode ser encontrada nas coisas mais simples da vida. Viver de recordações de um ex-relacionamento afetivo também é fria. Tem mulher e homem que ficam sofrendo meses após meses depois de um rompimento, de uma coisa falida que não tinha a menor chance de dar certo. Se transformam num açude de lágrimas, fazem da vida do ex-parceiro um inferno, e da própria, um caos. Gente assim enche o picuá de todo mundo porque fala no assunto de manhã, de tarde e de noite, não aceita conselhos e se refugia nas lembranças boas, mesmo que raras. E o que é pior, permanece nestas recordações meio que em estado de torpor, acreditando que tudo pode ser igual novamente.
Relembrar uma infância sadia e uma adolescência legal só dá prazer. Vez ou outra, reviver isso com amigos e filhos provoca boas risadas e até alivia as tensões. Mesmo porque tudo o que é ou foi bom na vida da gente deve ser plantado, regado e colhido com frequência, para não se apagar no tempo. Mas é só. Viajar no pensamento e ter falsas ilusões de que as coisas podem ser iguais novamente é burrice.
Viver o presente, mas sempre de olho naquilo que já passou, deixa qualquer pessoa vulnerável às frustrações e decepções. Tanto faz se você, um dia, foi podre de rico, teve um corpo escultural, foi o melhor aluno da classe, teve os homens mais bonitos aos seus pés ou se casou completamente apaixonada (para depois se separar). Passar o resto da vida chorando em cima do leite derramado, viver em clima de nostalgia e, por isso, viver do passado, faz você patinar e não sair do lugar. Quando não faz você andar pra trás, atrasar a própria vida e de todos ao redor.
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