Nesta semana, depois de trabalhar para uma festa com renda beneficente e de ver tanta gente furando esquema para entrar sem pagar, cheguei à conclusão de que os conhecidos caras-de-pau proliferam cada vez mais em tudo quanto é canto. Eles chegam, comem, bebem, dançam e vão embora falando mal. E não colocam a mão no bolso. Bicão de festa é angu-de- caroço que a gente tem que se livrar enquanto é tempo.
Se tenho know-how em alguma coisa, é em festa, e de todos os tipos. Desde casamentos e palestras até aniversários e concursos de miss. Durante todos estes anos, as minhas incursões pelo circuito festeiro me deram um apurado senso crítico e um certo jogo de cintura para encarar alguns compromissos, dos quais não sou muito a fim. Daqueles que a gente é obrigada a dar o ar da graça, fazer uma horinha e depois sair à francesa. Porque faz parte do manual de boas maneiras retribuir um convite.
Hoje em dia ser convidado para qualquer coisa é sinal de que você é muito bem-vindo, já que a seleção de convidados está cada vez mais restrita. Todo mundo sabe, mas é sempre bom lembrar: se você aceitou um convite e precisa desmarcar, faça com antecedência, nunca em cima da hora. Só em caso de vida ou morte.
Nessas minhas andanças, já vi e escutei de tudo em festas. Mas tem uma coisa que me chama a atenção e que deveria ser excluída a qualquer custo do métier de festeiros: bicão de festa. Ele está sempre lá firme e forte, sempre a postos, desde velório de gente famosa até casamento de alguma celebridade. E é excelente ator, já que improvisa aquela cena toda, como se tivesse esquecido o convite em casa, ou qualquer coisa parecida. Bicão de festa está sempre de olho na oportunidade de comer de graça, e se a noite render, até se infiltrar numa roda de convidados pra jogar conversa fora. Gente assim é louca por uma boca livre, se informa das festas que estão acontecendo, faz um verdadeiro arrastão nas colunas sociais e ataca.
Essas criaturas comem muito bem, bebem só do melhor e são os últimos a ir embora.
Para evitar que um bicão invada a sua praia, uma regra básica: os convites devem estar sempre à mão a fim de ser apresentados na porta da festa. Já fui a vários eventos que devido à falta da apresentação do convite e da relação dos convidados na entrada foram o maior fiasco. O corre-corre foi geral, já que faltou bebida e comida e a festa foi para o brejo. Preparada para 100 convidados, recebeu o dobro de pessoas, incluindo a presença de bicões de cidades vizinhas, tão amáveis que fizeram questão de levar solidariedade aos anfitriões. Pode?
Mas tem bicão que depois de devidamente reconhecido como penetra pelos donos da festa, é colocado no lugar: quando não é convidado a se retirar, é jogado de escanteio. A mala sem alça fica rodando pra lá e pra cá, come na cozinha e troca receita com o maitre. Mas não vai embora.
Uma única vez na vida vi um bicão se dar mal. E foi hilário porque a ‘‘peça’’, não satisfeita de bicar sozinha, levou uma companheira. O casal foi convidado a baixar em outro terreiro e teve que se contentar com um sanduba no bar da esquina. Bem-feito.
Alguns penetras fazem carreira. E tem alguns que passam a tradição de pai para filho. Tem bicão que se aposenta do emprego e aí sim, tem tempo de sobra para tirar proveito de tudo quanto é festa. Aí é que deita e rola à base de champanhe e canapés pagos com o dinheiro dos outros.
Quando se deparar com um bicão, coloque-o para correr. Não o deixe participar de uma festa que você organizou com tanto carinho, tendo toda aquela trabalheira. Faça a peça voltar pra casa com aquela cara de sanfona de oito baixos, colocar o pijama e o chinelo, estourar pipoca e assistir à televisão. E caso você tenha algum amigo que se inclua neste rol de aproveitadores, rompa relações. Porque a fama acaba sobrando pra você também.
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