Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Pior solidão é a solidão a dois
Tudo já foi dito sobre relacionamento a dois. Sobre casamentos, então, uma infinidade de coisas que a gente está enjoada de ler, reler, entender, saber, apostar e desconfiar. Se o casamento - aquele, de papel passado e tudo mais - continua em alta, eu não sei. Mas que as pessoas continuam a se casar dentro dos conformes, elas continuam. Podem até se arrepender um monte, depois. Mas encaram toda aquela cerimônia impecável, aceitam os protocolos, se desdobram em preparativos intermináveis e tornam-se alvo da sessão açude de lágrimas e das brincadeiras sem graça em torno da lua-de-mel. Mas tudo faz parte do grande acontecimento.
Casamento é sempre motivo de festa, de sonhos e de ilusões. E faz parte da vida. Como diz o ditado casamento é loteria: Você acerta ou não.
Tem mulher que ainda não satisfeita, depois de separada, casa pela segunda vez. De véu, grinalda e buquê. Até admiro, porque é apostar todas as fichas numa segunda tentativa, sem dar bola para quem vai falar. Eu já fui a casórios de amigas - separadas - que fizeram questão de bolo, champagne e convidados para brindar a união. Um casamento não muito cheio de protocolos, mas carregado de um bom astral que só por isto já valeu à pena.
Tenho um amigo que está no terceiro casamento. E sempre apaixonadíssimo pela atual mulher. O aconselhei várias vezes a não cair na tentação de dividir o armário novamente. Numa situação dessas, uma terceira tentativa deveria ser no estilo cada um na sua, traduzindo: cada um na sua casa, o que é uma atitude prática e que na maioria das vezes preserva a vida afetiva.
A pior coisa num relacionamento é aquele ranço de mágoas que ambos vão acumulando e que faz com que, homem ou mulher, vivam pisando em ovos.
Não sei onde li, mas tem sido comum casais que, depois de separados e num segundo relacionamento, chegam a morar juntos mas dormem em quartos distintos. E sem que isto arranhe a intensidade do amor. Casais que agem assim afirmam que quartos separados dão tranquilidade e liberdade e que são uma forma de respeito à individualidade. Normalmente, afetados por um casamento frustrado, apostam nesta atitude prática: ter um canto só seu.
Morar junto é jogo duro, todo mundo está careca de saber disto, mas continua a juntar os trapinhos. E mesmo depois de anos de namoro, casar e dividir o mesmo teto significa abrir mão da individualidade. Por mais que você adore o parceiro, há dias em que a vontade é de ficar só, sem precisar dividir nada, não sentir cheiro de cigarro, ter a pia do banheiro só pra você e comer sucrilhos na cama sem se importar com o farelo. E ficar horas a fio pendurada no telefone sem aguentar cara feia. Por estas e outras, muitos casais apaixonados dispensam a idéia de morar junto. Continuam cada um em sua toca e fim de conversa.
Uma amiga que mora sozinha, conta que vez ou outra baixa a vontade de morar junto com o namorado. Aí se muda de mala, cuia e papagaio para o apartamento dele. Dez dias são o suficiente para se instalar o balacobaco. Quando o relacionamento - que é ótimo - começa a dar sinais de stress, quando cada um começa a se incomodar com a pia da cozinha suja e com a toalha molhada sobre a cama, é o momento de zarpar. Esta minha amiga tem dois trabalhos: mudar e depois carregar tudo de volta. Já aprendeu: não abre mão de sua toca por nada no mundo.
Mas também tem o outro lado. Há mulheres e homens que decididamente não conseguem morar sozinhos. Casaram, separaram e estão atrás de outro parceiro para dividir a geladeira. Gostam de saber que ao chegar em casa vão encontrar a cara-metade esperando para jogar conversa fora e assistir televisão. E são felizes assim.
Tem também aqueles que consideram um casamento de papel passado, sacramentado e tudo mais, a certeza da estabilidade para o resto da vida. A felicidade vai ser eterna, os problemas vão ser resolvidos a dois, o amor não vai se render à monotonia e aquele papel assinado pelo juiz é o suficiente para uma vida a dois completa. Acreditam nisto acima de qualquer coisa. Morar separados, dar um tempo ou até mesmo separar de fato, são propostas indecentes. Não topam nem por decreto de lei.
Num relacionamento, não importa a maneira como qual você viva. Sob o mesmo teto, em casas diferentes, vez ou outra dividindo a pasta de dente, acho que tanto faz. Costumo dizer que a pior solidão é a solidão a dois. Você pode estar junto todos os dias, no café da manhã, no almoço, no jantar e na cama, mas continua completamente só. E num casamento isto é péssimo.
O ideal, já que tanta gente continua a se casar, é adaptar-se ao tipo de relacionamento. Cada casamento é único. Para se viver bem ao lado de quem se ama não é preciso seguir protocolos ou regras o tempo todo. É preciso sim ser feliz. Nada é mais importante que isto.
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