Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Passei boa parte da minha adolescência sentada num piano tocando aquelas escalas intermináveis e que hoje me dão arrepios. Encasquetei que seria uma grande pianista e durante exatos 10 anos estive acompanhada todas as tardes de Bach, Beethoven e Schumann. No fundo eu sabia que jamais seria uma grande concertista. Mas minha total falta de talento para a coisa esteve camuflada sob o esforço e a teimosia. E foi somente no momento em que aceitei conviver com as minhas limitações que fechei a tampa de meu Essenfelder e poupei o ouvido de muita gente. Mas não foi tarefa fácil, como não é até hoje, saber aceitar com humildade as próprias limitações.
Cheguei à conclusão que a gente passa muito tempo na vida - e ela é tão curta - se esforçando ao máximo para garantir o sucesso, quando isto não é o mais importante. Acho que só o fato de não ultrapassarmos alguns limites é o suficiente para nos dar segurança e tranquilidade.
Abandonar o piano não significou deixar de investir em mim mesma ou de acreditar na minha capacidade. Foi, sim, uma atitude madura e de bom senso. Não nasci para a coisa e ponto final. Aceitar esta minha limitação foi o primeiro passo para apostar nos outros pontos fortes que eu tenho. E que todo mundo tem.
Conheço mulheres que não são bonitas e que vivem paparicadas por tudo quanto é homem. Com muito savoir-faire, elas conseguem deixar a beleza física em último plano e aí, sim, dar vazão àquele algo mais que você não sabe de onde vem, mas que só elas têm. São mulheres inteligentes, que têm espelho em casa, uma certa dose de bom senso, autoconfiança e que deixam uma Cindy Crawford no chinelo.
Existe gente que com meia dúzia de elogios se considera o máximo, quando na verdade é igual a todo mundo. Passa a vida inteira tentando ser o que não é, querendo ser igual ao vizinho, se contorcendo para ultrapassar os próprios limites. Gente assim morre, mas não aceita ser menos que ninguém. E o que é pior, acaba se negando as boas oportunidades.
Tenho limitações em um monte de coisas. Assim como não me dei bem com o piano, também não tenho qualquer dom para pilotar fogão, sou um zero à esquerda para falar em público e não sei negociar um palito de fósforo. E também passo o maior apuro cada vez que preciso dizer não a qualquer coisa que me pedem. Sabendo destas minhas limitações aposto no meu lado positivo. Só assim a gente consegue neutralizar frustrações, tão comuns no dia-a-dia.
Se você não nasceu com o corpo da Adriane Galisteu, com o talento da Bruna Lombardi, com o carisma da Xuxa ou o dinheiro do Bill Gates deve, isto sim, se concentrar em seus pontos fortes, mesmo que eles se resumam em pernas maravilhosas, um sorriso estonteante e um talento ímpar para colocar a mão na massa.
Existe um ponto comum entre as pessoas que aceitam suas limitações sem fazer disso uma tragédia: não vivem se lamuriando ou falando mal de tudo e todos. Ao contrário. Pessoas assim costumam cultivar boas amizades, tiram da vida as coisas positivas que ela proporciona e mostram personalidade, não passividade.
Com certeza, não transpor certos limites não significa acomodar-se, deixar-se abater ou passar a vida numa frustração de dar dó. É, sim, uma atitude de bom senso e que abre outro leque de oportunidades.
Posso não ter sido uma Magdalena Tagliaferro na vida, mas acabei conquistando credibilidade em outros terrenos. Talvez até em menor proporção, mas o suficiente para ter fé no taco e apostar em tudo o que faço.
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