Dias atrás recebi de um amigo que não via há bastante tempo, um livro com uma dedicatória simples e carinhosa. Foi deixado na minha casa sem maiores pretensões, assim como se enviam flores ou até uma caixa de bombons para quem ser quer bem. Não era nenhuma data especial, mas o gesto me deixou feliz e me fez acreditar que gentilezas ainda existem. São raras, mas quando menos se espera elas aparecem no dia-a-dia.
Ainda nesta semana, uma senhora ofereceu seu lugar na fila do caixa do supermercado ao ver que eu tinha pouca compra para pagar. Ela estava com o carrinho abarrotado e iria demorar um monte. Como a maioria das pessoas está sempre com pressa e fazendo cara feia em situações como essa, achei aquela atitude o máximo. Mesmo porque tem gente que morre mas não cede o lugar.
Acho que ser gentil não significa apenas abrir a porta do carro para a namorada (isto é mais raro do que água no deserto) ou puxar a cadeira para a esposa no restaurante (só vejo em filme). As gentilezas podem ser mínimas coisas, como cumprimentar o porteiro sem bocejar às 7 da manhã, ou não fumar dentro do carro de alguém que você acabou de conhecer.
Dia desses quase perdi a ponta do nariz ao dar com o dito cujo na porta do elevador. Isto porque alguém se apressou mais do que devia e, literalmente, fechou a porta na minha cara. A ‘‘fina flor’’ não foi capaz de esperar e sequer pediu desculpas pela grosseria. Coisas do gênero também acontecem no dia-a-dia, infelizmente. E se você responder na mesma proporção, o balacobaco está armado. Mesmo porque, de gente grossa espera-se sempre o pior. Isto é fato.
Certa vez viajei com uma amiga que se recusava a dar gorjeta para maleiros e camareiras de hotel. Então a fiz entender que existem regras gerais quando se viaja. E dar gorgeta é antes de mais nada uma atitude gentil, de quem reconhece o trabalho feito pelo funcionário em questão. Não é humilhante e muito menos grosseiro dar gorjetas no ato do serviço. É de muito bom tom.
Uma gentileza dessas é completamente diferente daquilo que presenciei numa mesa, durante uma festa de casamento. Um tal convidado fez questão de anunciar para a roda toda que iria ‘‘molhar a mão’’ do garçom para ele caprichar na bebida. ‘‘Muito fino’’ este senhor que deixou o garçom na maior saia justa e sem ter culpa no cartório. Uma coisa medonha.
Outra falta de gentileza - que eu vivo azucrinando meus filhos para entender e aprender -, é entrar em aposento alheio sem bater na porta antes. Por conta disso, muita gente surpreende - e é surpreendida -, sem roupa e em situações de ‘‘querer morrer depois’’. Respeitando os direitos dos outros, estará sempre em posição para exigir os seus. Nem que for para dar umas três batidinhas para avisar, mas faça. Lá em casa eu ainda não desisti. A criançada vai aprender na raça.
Outra coisa que aprendi: mesmo que você esteja a um passo da loucura, depois de descascar todos os pepinos do dia, não engrosse ao telefone. Do outro lado da linha, com certeza está alguém a fim de bater um lero ou até pedir uma informação qualquer. Seja gentil, porque é horrível ser maltratada via telefone, sem saber, inclusive, qual é a cara do cidadão.
Troca de beijos e abraços na sua frente e o tempo todo também não é de muito bom tom. Quem suporta um casal dando beijos estalados de dois em dois minutos e se amassando sem parar, no cinema e rente ao seu nariz. Melhor trocar de lugar e não armar o barraco. Ou então aguentar firme, passar vontade e voltar pra casa com torcicolo. Ou quem sabe, com muito jeitinho, sugerir ao casal um motel, já que o filme é o que menos interessa à dupla.
Nunca na vida pergunte a idade de uma mulher. Primeiro, porque é muita grosseria e, segundo, porque ela dificilmente vai dizer a verdade. Perguntar a idade de uma mulher é crime inafiançável, é falta de gentileza total. Principalmente quando o indiscreto, depois da resposta, arremata com a pérola: ‘‘Tudo isso? Não parece’’. Aniquila qualquer mulher.

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