Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)
Tenho pouca paciência com quem fala demais. Gente que fala pela hora da morte, sem ponto e sem vírgula, não respeita a opinião alheia e vai tropeçando em palavras e gestos, a qualquer hora e em qualquer lugar. Aquele tipo de pessoa que conta uma história longa, sem eira e nem beira, enquanto você se pergunta o que é que eu tenho com isso?
Tem pessoas que não sabem ouvir. Você ameaça dar um palpite e é cortada no ato. Monopolizam qualquer assunto, falam pelos cotovelos, não dão chance de qualquer pessoa da roda expor suas idéias. E, literalmente, se consideram o máximo. Dominam muito mal o assunto em questão, mas, como não perdem a oportunidade de abrir a matraca, contam a mesma história pela segunda e terceira vez. Um porre de chata é gente assim.
Não ser bem informado não é pecado e nem é feio. Existem coisas muito piores, como não estar antenado em tudo e dar uma de esperto, querendo passar a imagem do rei da cocada preta. Tem gente que gosta de ser engraçada e contar anedotas nas horas mais impróprias, que adora provocar os outros com opiniões e expressões que chocam. Adora se exibir, causar sensação. Quando na verdade ninguém suporta. Uma pessoa que fala o tempo todo, sem um pingo de modéstia, enche o saco de qualquer cristão. Nem por Deus.
E a velha mania de falar de todo mundo? Existem pessoas que falam da vida alheia com tanta naturalidade, como se estivessem falando de chuchu e abobrinha. Não estão nem aí se o comentário vai crescer, se a coisa vai parar por ali, se o assunto é segredo de estado. Estão pouco se importando, não têm pudor e contam toda a história de fio a pavio. Você chama a atenção e ela te responde na maior cara dura: Não é segredo, todo mundo sabe. Claro, a infeliz já se encarregou de distribuir a notícia pela cidade inteira.
Falar da vida dos outros é coisa grave. Mesmo que aquilo esteja te fazendo coceira e te fazendo roer o resto das unhas, cale a boca. Assuntos sobre a vida alheia vêm sempre acompanhados de doses ferinas. Se alguém se encostou em você para falar de outra pessoa, com certeza é para falar mal. E caprichar no sarcasmo.
Vai dizer que você nunca falou um palavrão? Nem unzinho, daqueles bem miúdos? Eu já. E um monte deles. Mas não saio por aí me expressando aos trancos e barrancos, não respeitando o ouvido alheio. Palavrão só pode ser dito dentro do banheiro, no quarto, entre quatro paredes. E baixinho. Mas também vale na hora em que um infeliz rouba sua vaga de carro, naquela vacilada feia, da qual você não se perdoa. E desde que seu único acompanhante seja Ed Motta soltando o vozeirão na FM. Aí pode.
Conheço gente que de tão habituada a dizer palavrão, transforma essas palavras em ponto e vírgula. Xinga com a mesma facilidade que dá bom dia. É um besteirol só. Ficar perto de pessoas que estão sempre com um nome horroroso na ponta da língua faz a gente se sentir desrespeitada em núnero, gênero e grau.
Uma coisa é certa: tem pessoas que depois que se acostumam a falar palavrão em alto e bom som, extrapolam sem o menor bom senso. Quando viram, já falaram. A palavrinha obscena fica pairando no ar deixando todo mundo com aquela cara de mamão macho. Ou seja, completamente sem graça.
E os conhecidos professores de Deus? Sempre sabem de tudo, de política a química. Este tipo de gente que fala pelos cotovelos achando que você é o mais ignorante do pedaço, merece a forca. Quem na vida nunca cruzou com um tipo desse. Sabe tudo, acerta tudo, é o sábio dos sábios. Não tem pra ele. Dê um chega pra lá no cidadão. Ele que vá contar farofa na lua.
É tão feio contar vantagem, mostrar que sabe mais que todo mundo! Um horror é gente que verbaliza eu faço, eu tenho, eu aconteço, eu sou..., chatos de carteirinha, diga-se de passagem.
E os gaffeurs da vida? Falam o tempo todo dando gafes homéricas. Tenho como regra: Na dúvida, fico de boca calada. Porque pior que gente que fala palavrão e se considera o must, é gente que dá fora, vive pagando mico. Cruzes! São os conhecidos gangorras. Quando se sentam numa roda, todo mundo levanta. Eu sou a primeira a cair fora.
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