Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)

Cai fora baixo astral!

Arquivo FolhaCostumo dizer que gente bem-humorada é abençoada por Deus. Quando digo bem-humorada, me refiro àquelas pessoas que definitivamente fazem do bom astral um estado de espírito. Tanto faz ter tido uma péssima noite, tomar café frio logo pela manhã ou topado com aquele vizinho ranzinza nas primeiras horas do dia. O humor não se abala. Tudo é motivo para se tirar proveito da vida. Adoro gente assim.
Gente que vive se lamuriando por qualquer coisa ou te sugando para depois te largar um bagaço é o tipo de pessoa que corto volta, mudo de calçada sem pensar duas vezes. E conheço um legião de pessoas com o astral no pé, com aquele semblante de assustar criancinha, sempre com uma notícia ruim na ponta da língua. O que mais incomoda pessoas com este perfil é te ver bem, realizada e feliz. Xô urubu!
Já tive vizinha que me azucrinava a vida de tanto mau humor e já pus pra correr um parente que me dava nas tampas de tanto reclamar. Gente assim se julga a mais injustiçada do mundo e está sempre de olho gordo na felicidade do mais próximo. E quando se dá lado, sai de baixo. Você vira um muro de lamentações e acaba se transformando numa pessoa amarga, se sentindo culpada da desgraça alheia.
Escutar um amigo na hora em que ele precisa é uma coisa. Aguentar língua de gente mal-amada e pobre de espírito é outra. Eu corro léguas de um urubu desses. Mesmo porque eles não perdem uma única oportunidade para te derrubar. A sua felicidade e a de outros incomoda, tira o sono, dá urticária.
Dar atenção para um colega naquela hora em que a vaca foi pro brejo literalmente faz parte do manual das boas amizades. Amanhã pode ser você que precise lavar a alma. Mas transformar isto numa rotina ou fazer da sua casa um consultório e o seu telefone de disk-desgraça é demais. Se você é o alvo, sutilmente entregue para o dito cujo o cartão de um bom analista. Mesmo porque, você não cresceu para ser conselheiro de gente problemática.
Quando se é adolescente tudo é transformado numa tragédia. O fim do namoro, as notas vermelhas no boletim, a falta de paciência dos pais, a alugação do irmão caçula. Aí é quando o telefone se transforma num divã e do outro lado da linha, o melhor amigo, num psiquiatra. A infelicidade e a incompreensão de tudo e de todos vira o tema do dia. Aí você cresce, amadurece e começa a enxergar tudo diferente. Mas têm pessoas que se arrastam anos a fio nesta mesma lenga lenga, adoram ter alguém para reclamar da casa, do marido, da mulher, dos filhos, da falta de dinheiro, da profissão, da cidade em que mora e dos amigos. Gente assim diz estar sempre doente, quando na verdade esbanja saúde por todos os poros. Eu conheço uma de longe.
Seja em qualquer lugar do planeta um urubu vai sempre estar de butuca. Ele chega devagar, vai escorando, lamentando, e quando você se der conta, está chorando junto. Depois a mala sem alça ataca outra vítima, consome todas as energias positivas e te deixa um trapo.
Problemas ao monte todo mundo tem. Menores ou maiores, eles fazem parte da vida. Mas tem gente que é o próprio mensageiro do Apocalipse. E é certo. Gente baixo astral só atrai coisa ruim. Pra ela. E pra você, quando dá corda.
Muito pouca coisa na vida me tira o bom humor. E meus problemas não são mais ou menos importantes. Dormem e acordam comigo. Mas deixar que eles transformem a minha vida num caos é burrice e viver passando recibo de coitado é pior ainda.
Li outro dia a seguinte frase ‘‘se a sua estrela não brilha, não procure apagar a minha’’. Caiu como luva naquele dia em que resolveram despejar nas minhas costas uma avalanche de desgraça. Mas decididamente comprar os problemas dos outros não é a minha praia. Bastam os meus.
Pitangas derramadas no colo dos outros não me livram do saldo bancário no osso, daquele vizinho chato, do carro batido na garagem, da azucrinação dos filhos. O jeito é transformar tudo isto em refresco. E tirar da vida o que ela oferece de melhor.
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