ReproduçãoQuerendo ou não a gente passa a vida sendo quase que obrigado a tomar decisões. E, muitas vezes, decidimos aos trancos e barrancos pela força das circunstâncias. Me lembro até hoje sobre a minha tremenda indecisão ao preencher o formulário de inscrição para o vestibular. Aos 16 anos, eu mal sabia o que queria da vida. A cada instante achava uma profissão interessante, sempre com a minha cara. Um dia era advogada, no outro médica e no outro jornalista. Dei sorte, optei por algo que me preenche, me satisfaz, me realiza. Mas não é assim com todo mundo.
Tenho amigos que passam pela vida fazendo aquilo que não gostam, ou porque foram condicionados e criados a ocupar tal cargo, ou porque fizeram a escolha errada, no momento errado.
Pode até não parecer, mas uma carreira frustante acaba com a pessoa. A não ser que aquilo dê rios de dinheiro e um dia, bem lá na frente, a pessoa resolva montar aquele negócio com que sempre sonhou. Mas isso a gente vê acontecer vez ou outra. Só mesmo quem nasceu com a quina pra lua. Pra gente assim até vender sal no deserto dá dinheiro.
Tem gente que sem abrir mão de ser feliz, não se intimida e escolhe o caminho mais suado. Tem tudo embrulhado pra presente, mas diz não e acaba seguindo a intuição, o coração, a razão, seja o que for. Mas com a única finalidade de concretizar um sonho, um objetivo.
É fácil reconhecer alguém que curte o que faz, que vive com a certeza de que seu tempo neste planeta não foi em vão. E nem precisa ser rico, ter ganho muita grana, ter sucesso absoluto. Um pedreiro pode ser perfeitamente feliz naquilo que faz todos os dias. Muitas vezes, o mesmo não acontece com o diretor de uma multinacional. Fazer o que se gosta é a palavra-chave. Desde alinhar tijolos até tomar decisões numa grande empresa.
Quando digo aos meus filhos que a realização pessoal é antes de mais nada um estado de espírito, eles sabem do que estou falando. Porque se eu fosse qualquer outra coisa que não jornalista, com certeza seria uma chata de carteirinha. E uma mãe crica, acima de qualquer coisa.
Uma vez conheci um professor universitário que deixou a cidade, um bom emprego, os amigos e a família para se aventurar naquilo com que sempre havia sonhado. Um sonho simples, que incluia um barzinho à beira-mar, uma casa na praia, uma rede e um barco. Tudo muito discreto, sem qualquer sofisticação. Durante 20 anos, ele preparou tudo para se lançar nesta aventura. Juntou dinheiro, armazenou conhecimentos e se lançou à sorte.
Tem gente que passa a vida inteira juntando dinheiro, pensando em levar a bufunfa pra outra vida, depois que partir desta pra melhor. No português claro, depois de colocar o terno de madeira e bater continência para Jesus. Passa a vida se lamentando e cantando em verso e prosa sua frustração de não ter feito aquilo de que gosta. Mas também não sai daquilo.
Acordar cedo e matar um leão todos os dias para sobreviver já é tarefa dura. Calcule fazer isso sem gostar. Nestas condições, ir para o batente significa entrar num matadouro.
Tenho um amigo que passou bons anos de sua vida pensando em subir profissional e socialmente. E conseguiu. Hoje é rico. Quer dizer, rico é pouco. É milionário, tem dinheiro pra jogar fora, gastar com o que quiser. É daqueles que nunca conferem canhoto de cheque ou extrato bancário, vive com os puxa-sacos lambendo seus pés, doidos por uma carona em seu jatinho. Já trocou de mulher umas três vezes e mandou os filhos para estudar no exterior. Mas na época de faculdade, o que ele mais sonhava era estar trabalhando na redação de um grande jornal ou cobrindo um acontecimento internacional para uma rede de televisão. Éramos amigos inseparáveis e sempre viajávamos nestes sonhos que, na época, nos pareciam tão distantes. E que eu corri atrás. Ele optou pelo caminho mais lucrativo, mais fácil. Herdeiro de uma grande fortuna deixada pelo pai, mal pegou o canudo da faculdade, zarpou de vez. E quando a saudade bate forte, me telefona para relembrar tudo aquilo que sei de cor e salteado. A profissão de jornalista cedeu lugar para a de um grande empresário no ramo de aço. Mas deixou uma brecha de frustração no coração e na alma. Que nem todo o dinheiro do mundo é capaz de fechar.
Dia desses assisti a um filme que conta a história de Madonna. Esta louca, que transformou sua vida exatamente naquilo com que sempre sonhou. Avessa às regras e tabus, ela correu atrás daquilo que acreditava, se transformou no símbolo da mulher liberada, ambiciosa, destemida e de sucesso. Ela é o personagem feminino mais importante neste fim de século. Pelo menos para a minha geração. Então, quando escuto alguém se lamuriar da vida, que não se realizou de um jeito ou de outro, mando ver. Ser como Madonna uma vez na vida, talvez seja a única chance de virar a mesa e fazer aquilo que se gosta. Vou repetir eternamente: a história de vida de cada pessoa é feita a partir de opçöões. E estamos conversados.

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