Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Cá pra nós Elisiê Peixoto
À base de alface
Toda gordinha parece nunca ter vez. Se tem quilos extras, está completamente fora dos padrões de beleza. Se emagrece um monte, é porque tomou anfetamina e quase pirou. E se suou a camisa e perdeu as dobras após horas de malhação, é taxada de mentirosa por uma legião de mui amigas despeitadas.
A gente sabe que os anos não melhoram a aparência de ninguém. De gordo, então, nem se fala. Quando se é obeso na infância e na adolescência, os quilos extras, com toda certeza deste mundo, vão acompanhar o dito cujo até o fim da vida. E se nada é feito a respeito, o jeito é se conformar com o visual arredondado e tentar tirar proveito da situação. E entregar pra Deus. Mas uma coisa é certa: ninguém é feliz com 10 quilos extras. Nem Rei Momo, o único gordo que conheço que tira algum proveito da sua imagem.
Vaidade é uma coisa complicada. Vaidade e mulher, então, nem se fala. Se você se curte, se deslumbra com o que vê todos os dias no espelho e, principalmente, faz das tripas coração para manter-se em forma, é taxada de fútil, antipática, insuportável, perua, qualquer outro adjetivo do gênero. Se não se cuida, se não vive por conta disto, se encara sem culpa uma bela fatia de pizza, é chamada de desleixada, mal-arrumada, um horror.
Toda mulher nasce com a sina de ser vaidosa. Tem mãe que empeteca as filhas desde pequenas. Empeteca não, fantasia. As coitadinhas mal começam a andar e já têm que aprender a se equilibrar nos vestidos engomados e armados. Mais parecem um abajur. Sem falar naquelas que colocam as pequenas nos cursos de modelo e manequim. Sonham com as filhas desfilando tal qual a Cláudia Liz ou, quem sabe, como a mais que famosa Naomi Campbel.
Ser bonita e manter-se jovem significa ter perseverança, disciplina, tempo e dinheiro. Mas a coisa não é tão simples assim. Acordar às 6 da manhã, fazer uma hora de cooper, malhar 2 horas na academia, suar por todos os poros e depois encarar uma folhinha murcha de alface, não é tarefa pra toda mulher. Principalmente para aquelas que trabalham duro, cuidam de casa, filho e marido.
Taí. Dinheiro é um item importantíssimo para ficar bonita, com os cabelos sedosos, a pele impecável, o corpo durinho, as unhas feitas. Basta olhar o armário de uma mulher bela e cheia da grana. Tem perfumes de todas as fragrâncias, cremes e mais cremes importados, estojos de maquiagem maravilhosos, batons de todas as cores e todas as grifes. E de preferência comprados na Bloomingdales, em Nova York. Sem falar nas quatro horas diárias que uma platinum blonde destas gasta na academia e nos aparelhos em que recorre para se tornar um avião. Aí é fácil.
Alguém já viu uma mulher que trabalha fora de casa, aguenta criança perturbando, marido solicitando e empregada faltando, manter a cútis feito pele de pêssego, o cabelo sempre em ordem e o corpo um arraso? Impossível. Só quando Deus fez dela uma formosura e a conservou assim por obra do Espírito Santo.
Mas, e se Deus não foi tão camarada com você? E se, com muito custo, você consegue fazer cooper sem gastar um tostão e criar fórmulas emagrecedoras por conta própria, pelo menos resta o consolo de que ninguém vai te cobrar isso o resto da vida. Daqui a 30 anos, não vai ter que engolir aquela pérola quem diria, você foi uma das moças mais bonitas da cidade. Este tipo de elogio derruba qualquer cristão.
E já que a cobrança pelo visual maravilha é sempre apontada na direção da mulher, todo homem deveria também cuidar daquela barriguinha saliente que pinta aos 40 anos, e da calvície que começa dar as caras na faixa dos 45. Não falo daqueles insuportavelmente vaidosos, que se amam 24 horas, cultuam o próprio corpo malhado, tomam uma ducha de 40 minutos e saem tinindo de perfumados para trabalhar. Homem muito vaidoso é um porre. Na verdade é pior que mulher.
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