Carnaval: ame-o ou deixe-o
Elisiê Peixoto

ReproduçãoÉ certo. Carnaval, você ama de paixão ou odeia. Não existe meio-termo. E como o fuzuê rola só quatro dias durante o ano, às vezes você está em clima total de festa, com os pezinhos formigando, a fantasia no cabide, camarote reservado e se aquecendo nas preliminares da Folia de Momo. Seu sócio ou sócia de cama e mesa, não pode nem ouvir falar. Mas você pouco se importa, quer mais é soltar a franga e rasgar a fantasia, literalmente, de tanto sambar.
Há um mês escuto das pessoas que ‘‘depois do Carnaval a gente resolve’’ ou coisa parecida. Isto porque o Carnaval é a festa mais democrática do Brasil, rola Folia de Momo por tudo quanto é canto do País. Rico ou pobre, tanto faz. O ziriguidum ferve e durante quatro dias o Brasil pára. E até aquele que não curte, acaba engolindo o batuque e se contagiando com a alegria do povo.
De qualquer maneira, como a coisa vai pegar feio este ano já que a bufunfa tá curta, você resolve afogar as mágoas em fevereiro e jura por todos os santos que este vai ser o melhor Carnaval da sua vida.
Hoje eu nem ligo mais para Carnaval. Mas teve uma época em que não brincar era a morte. Eu e vários amigos aterrissávamos no salão quando o batuque começava e de lá saíamos com o dia claro. E histórias de Carnaval para contar eu arquivei várias. Uma piorzinha do que a outra.
Mulher que carrega nas costas um marido chegado numa birita é de amargar. Se a peça já bebe normalmente, Carnaval significa entornar o caneco, tomar todas e cair na vida. Durante meus tempos de carnavalesca já vi cenas de arrepiar.
Mulher voltando pra casa mais cedo, com o rosto vermelho de tanto chorar e carregando o dito cujo completamente em órbita, era o que mais se via nas quatro noites de folia. Homem bêbado já é uma cruz, então imagina o maridão vestido de Capitão Gancho, com a cara amassada, aquele bafo de pinga e falando um festival de abobrinha na cabeça da mulher?
Tudo bem que no dia seguinte o efeito implosão acaba com o cidadão e deixa a esposa vingada. Convenhamos, não deve ser uma sensação muito boa fechar os olhos e sentir a cama girar, abri-los e ter a sensação de que o dia do Apocalipse chegou. É a tal ressaca, velha amiga dos beberrões que tentam de tudo, desde chá de boldo a glicose na veia, para se livrar dela, alí, firme e forte durante toda a noite, imbatível.
E mulher que enche a cara? Já presenciei cenas de lascar o cano e já vi muita madame perder a pose depois de mamar doses e mais doses de uísque, cerveja, e se duvidar, até de Pinho Sol.
Com a bebedeira fica mais fácil espalhar no salão que o marido não tem dado conta do recado. Eu já escutei isto e não ficou barato. O sócio revidou a altura: contou que a esposa era a maior mão de vaca e que roncava feito um trator. Coisa fina.
Adolescente folião também significa problema. Além de pular, adora misturar bebida fermentada com destilada. E dar trabalho para os pais. Em casa, depois da confusão armada, passa o resto da noite no banheiro, de preferência de joelhos, chamando o Juca, um amigo comum entre os beberrões. E haja Alka Seltzer e Engov para cuidar do filhote, que no dia seguinte, depois do porre homérico, vai preferir estar morto.
E já que estamos em contagem regressiva para o Carnaval, uns toquezinhos nunca são demais: antes de partir para a folia, melhor forrar o estômago, proteína e glicose são indispensáveis. Depois, vem a velha regra: destilado e fermentado não combinam. E tenha sempre em mente que gente bêbada enche o saco de todo mundo. Lembre-se que dar uns amassos com a cara cheia não rende nada. Mas se quiser tentar, tenha em mãos a arma mais poderosa do momento: a camisinha. Muito cuidado ao cobiçar o marido ou a mulher do próximo. Já vi muita gente subir nas tamancas e rodar a baiana em grande estilo. Tenha a certeza de que ressaca é pior do que a dor do parto. Como ninguém pediu para você entornar o caneco, o problema é todo seu. Trate da ressaca sozinho, fique na penumbra com a porta fechada e apareça só quando começar a raciocinar.
E se o balacobaco foi forte na noite do pileque, melhor não dar as caras nos outros dias de folia e pagar o maior mico. Pior do que a própria ressaca é ter que escutar: ‘‘Que porre ontem, hein colega?’’.
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