Cá pra nós (Elisiê Peixoto)
Já deve ter caído na sua praia aquele tipo de gente que vive se convidando pra qualquer coisa. Ou então, que está sempre pegando o fio da meada e colocando o dedo na sua conversa. Ou pedindo carona nas horas mais impróprias. Gente assim a-do-ra chegar na sua casa na hora do jantar, usar seu telefone para interurbanos, pedir roupa emprestada. Quer um conselho? Não faça o jogo dessa mala sem alça. De boba ela não tem nada. Quer mais é te sacanear.
Já escrevi sobre tudo quanto é tipo de gente. Desde bicões de festas até gente mal-humorada. E mais uma vez - depois de ser a vítima em questão pela 30ª vez - escrevo sobre os caras-de-pau da vida, sempre se fazendo de bobo e aproveitando para se esbaldar à sua custa e tirar proveito de tudo quanto é situação.
Gente que se convida para festa é um cara de pau de carteirinha. Muitas vezes, os noivos vão dar uma reunião só para os mais amigos e o cara de pau põe as manguinhas de fora. Liga para a noiva, cerca ela rua, ajeita um encontro...só para se convidar na maior cara dura. Dá uma de João sem braço e sai com aquelas indiretas diretíssimas, que fazem a pessoa cair que nem pato. Tem também aquele cara-de-pau mau pagador. Que te deve a maior grana e sempre sai pelo escanteio. Não tem dignidade, vive contando vantagem e te encontrando em tudo quanto é vaivém social. E nada de falar sobre os níqueis que te deve. Uma vez recebi o telefonema de uma conhecida que literalmente se convidou para a festa do meu aniversário. E que fazia questão absoluta de ir à party, como se estivesse me fazendo o maior favor do mundo. Dispensei, claro. Esse tipo de gente não é um bicão assumido que vai a tudo sem sequer conhecer os anfitriões. É bicão do mesmo jeito, mas do tipo que avisa que vai estar presente de qualquer maneira. Considero pior.
Tem gente que vende a alma para pertencer ao métier de pessoas conhecidas, ricas ou famosas. Chega a ser hilário este tipo de gente safada, que muitas vezes cria um clima constrangedor. Por um convite se rasga toda, quase enlouquece. É aquele ser humano abominável que está sempre puxando o saco de milionários, empresários bem sucedidos. Este é um cara-de-pau convicto.
Tem também o tipo mal intencionado que não paga a conta. Hoje em dia é tão comum você sair e dividir as despesas. E é o certo. Fulana paga pelo que bebeu, ciclano pelo que comeu. Mas e quando determinada pessoa vai, come, enche a cara, e na hora da rachar as despesas avisa que esqueceu a carteira em casa? Uma única vez é perdoável, mas quando isto se repete no segundo encontro, é porque a pessoa está de má fé. Quer mesmo é te passar a perna.
Quando alguém te aprontar uma desta, logo na primeira abra o jogo: tem dinheiro, divide a conta da cerveja; não tem, então fica em casa. Melhor deixar tudo às claras, do que, mais tarde, ficar incomodada com a presença daquela pessoa que não consta no rol de seus melhores amigos.
Visita inesperada também é um prato cheio para os caras-de-pau. Tem gente que aparece na sua casa depois de dois anos sumido, se acomoda e vai ficando. Tem hóspede que cai na sua casa sem pressa e não avisa quando é que vai embora. A anfitriã tem que descobrir e fica na maior saia justa. É regra: mais de uma semana na casa de alguém é gafe. Só não vale para a casa de mãe, da avó e olha lá...
Tem cara-de-pau que absolutamente não se incomoda com os outros. Solta aquelas baforadas horríveis perto de você que não fuma, usa seu banheiro e fuça em tudo, coloca os pés na mesinha de centro da sua sala, fila um cigarro atrás do outro, devolve aquela roupa emprestada em situação de miséria, usa seu telefone para fazer interurbano, some com seus CDs, usa e abusa do seu batom caríssimo. E a-do-ra sua casa: baixa por lá de manhã, de tarde, de noite. Sem avisar, é claro.
Só existe uma situação em que perdôo uma pessoa cara-de-pau: quando a mulher mente a idade. Não conta nem sob tortura. Tem mulher que pára no tempo, no espaço, dorme no formol se for preciso para conservar os 25 anos. Quer saber? maior cara-de-pau é aquele que pergunta a idade de uma senhora ou mesmo de um broto. Pra gente assim não tem perdão.





