Arquivo FolhaMesmo que você e a família viajem e fiquem fora de casa durante um mês inteirinho, convenhamos, filhos em férias e à toa, dias a fio, são de desorientar qualquer mãe, por mais zen que ela seja. Por isso mesmo somos dotadas de muita tolerância e abnegação. Só por Deus.
Criança dentro de casa, de manhã, de tarde e de noite, e com outras crianças igualmente em férias, resulta uma mistura explosiva. Por mais educadinhas, chega uma hora em que rola briga e palavrão. E o balacobaco se instala. Puro delírio você achar que os anjos vão jogar videogame calados, não atacar geladeira e ainda não traçar o que tiver pela frente. Eles fazem tudo isto e ainda deixam rastro por tudo.
São 60 dias corridos de telefone ocupado em tempo integral, de sacolas e mais sacolas de compras de supermercado, de sala e quarto bagunçados de manhã à noite, de trabalho dobrado para as secretárias de forno e fogão.
São as férias, fazer o quê? Mesmo na praia, na fazenda, na lua, chega uma hora em que qualquer mãe entra em contagem regressiva para o início das aulas. Abençoada escola que faz a nossa vida entrar no curso normal, as crianças aterrissarem cedo para debaixo das cobertas, pular cedo da cama, não ter tempo para conversa fiada.
Eu adoro meus filhos como você deve adorar os seus. Mas haja paciência. Se deparar com aquela prole deitada no tapete da sala, afundada nas almofadas de chantung importado e fazendo do cinzeiro de porcelana chinesa depósito de chips, faz até a Madre Superiora perder a pose. Pior então, quando você precisa pular pernas e braços e ainda ouvir ‘‘Tia, dá pra sair da frente da TV?’’.
Desista de ensinar ou obrigar filhos a ajeitar a bagunça. De juntar os copos, de voltar os gibis para o quarto, de não deixar cair grão de tudo no tapete. Você fala todo dia a mesma coisa. E vai passar o resto da vida assim.
Passei minha infância brincando na rua. Adorava uma rua, uma calçada, a casa do vizinho. Nas férias, só estava em casa para comer, tomar banho e dormir. E mesmo assim depois de ser ameaçada de boas palmadas. Tudo completamente diferente dos tempos atuais. Hoje, criança andar de bicicleta no quarteirão é perigoso.
Verdade seja dita. Acostumamos os filhos mal. Eles têm pavor de tudo que requer um pouco mais de esforço. Subir em árvore, brincar no quintal, jogar bola, caçar sapo com bodoque, correr e pular ao ar livre é castigo. Gostam sim, de ficar em casa, vendo televisão, estáticos em frente ao computador ou ligadíssimos nos jogos de videogame.
Vontade a gente tem de áoferecer os pimpolhos para a avó durante duas semanas. Mas, quem se arrisca? Despachá-los para alguma colônia de férias, eles não querem; prometer mundos e fundos para eles se comportarem é inútil. O jeito é entrar na dança e encarar a filharada de papo pro ar.
Acho que só mãe separada é que tem um sossego nas férias. É quando os filhos debandam de mala, cuia, patins, bóia de patinho, jarro de abacaxi, bicicleta, papagaio, periquito e cachorro, para o endereço do pai, aquele, o ex-sócio de cama e mesa da mãe. E lá ficam dias e dias matando as saudades, na boa, já que na casa do pai, pode-se fazer de tudo. Mãe é sempre a chata, que regula tudo, que grita por causa do piquenique na sala, do assalto à geladeira, da gritaria geral. Quer saber, mãe é pau de galinheiro. Não preciso dizer mais nada.

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