Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Uma semana apenas
Arquivo FolhaNa quarta vez em que
se viaja sozinha, a
família vai até ao
aeroporto para dar
adeuzinho de longeViajar com a família é bom, é necessário, faz parte da arte de bem viver. É quando as pessoas ficam mais tempo juntas. E quando tudo pode dar certo ou dar errado, a partir do momento em que se divide o mesmo quarto durante dias. Mas não importa. Como viajar ainda é uma das melhores coisas da vida, tirar férias com a família é motivo de alegria - ou deveria ser. Mesmo que role o maior balabobaco, viajar in family significa maior convivência entre pais e filhos.
Agora, imagina se há um tempinho atrás uma mulher casada tirasse férias sozinha. Sem marido, filhos, cachorro, gato, periquito e papagaio. Podia até morrer de vontade - como qualquer mortal que está até as tampas de casa e da prole toda - mas não tirava. Hoje, graças a Deus, colocar o pé na estrada sem maiores explicações e muito a fim de relaxar - somente relaxar - tem sido a opção de algumas mulheres que como qualquer outra, em qualquer lugar no Planeta, sente falta da privacidade, de sossego, de paz de espírito.
Colocar o traseiro no banco de um avião e ficar sete dias fora, livre e sem encomendas, é a conquista de muitas mulheres que cuidam da casa, trabalham fora, engolem sapo de empregada, aguentam malcriação de criança, mau-humor do marido, desaforo da vizinha e por aí afora. Isto, anos a fio. Já virou um novelo.
Então chega o dia que você resolve virar a mesa. E se aventurar pela primeira vez, não se importando com o que vão falar, pensar. É um Deus nos acuda, a casa vem abaixo. A prole vai ter que se virar durante uma semana. Você dá os ombros e parte sozinha da Silva para um cruzeiro ao Caribe, uma semaninha em Nova York, ou até uns dias na fazenda da melhor amiga. Não importa, você precisa respirar. Chutar o balde e gritar por independência.
Sair de férias uma semana sozinha muitas vezes significa a salvação. Principalmente quando se está à beira de um ataque de nervos e você precisa de algo que a faça bem feliz. Não importa para onde sua grana conseguir te levar. Em primeiro lugar, tem que deixar para trás as preocupações do dia-a-dia, as desconfianças e o remorso em deixar a filharada que mal sabe se alimentar sozinha. Dá licença!!
Nem que o marido fique bicudo num canto, com aquela cara de infelicidade e fazando tudo quanto é tipo de malcriação, entre no clima da viagem. Faça planos, se dê a este direito. E tenha a certeza daquilo que você já havia se esquecido: você faz falta.
Depois de uma semana longe e sozinha em qualquer canto, deu para sentir que ninguém morreu. Tudo continua nos conformes. A saudade - não muita - começa a dar a cara, e você, a se sentir uma galinha choca, querendo filho e marido debaixo das asas.
Viajar sozinha revitaliza. A primeira saída é complicada. A segunda, mais ou menos. A terceira você tira de letra. E na quarta, filho e marido te colocam dentro do avião e dão adeuzinho de longe.
Palavras de quem tem experiência farta no assunto. A gente volta boazinha e mansa que só vendo.
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