Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Domingo! ai, o domingo...
Arquivo FolhaPosso ser uma exceção à regra, mas detesto os domingos. É aquele dia em que fico me sentindo completamente fora de esquadro, com horários alterados, tudo fora da rotina. E eu até gosto da rotina, porque me programo direitinho e quando ela é quebrada, algo aconteceu. E depois, todo domingo se arrasta numa monotonia de dar dó. Um horror.
Com filho adolescente em casa, domingo significa total falta de privacidade. A sala fica lotada e a sessão vídeo rolando. Aí fica muito chato você não oferecer um lanchinho pra moçada que em meia-hora consome metade do que tem na geladeira. Mas tudo bem, você serve, eles comem. E você limpa.
Aquela conversa de dar uma geral na casa continua valendo. Porque domingo não só é dia de ficar em casa, como também de bagunçar o pedaço. Aí, junta-se tudo que se vê jogado nos quatro cantos da casa. Mas tudo bem. Domingo não é o dia da família? Então, nada de briga ou de chutar o pau da barraca.
E para a maioria das famílias, domingo também significa comer fora. E de preferência no restaurante mais disputado da cidade. A espera é longa, a barriga ronca, o mau-humor se instala, as crianças reclamam, os ânimos começam a se exaltar. Pelo menos 10 casais estão na sua frente, tal e qual você: Morrendo de fome e arrependido até o último fio de cabelo por ter saído de casa.
Também não gosto de praia. E toda vez que falo isto numa roda de amigos, a casa cai. Parece um sacrilégio. Talvez até gostasse, se não tivesse aquele batalhão de gente vendendo de tudo - pelo dobro -, criança pulando braços, pernas e te fazendo engolir areia.
E quando se está fora de forma, o jeito é encarar o areião, lagarteando, deitadinho e com tudo bem esticado. Aquelas cadeiras de praia, baixinhas, são feitas pra magro. Afundada nelas, sua barriga dobra uma, duas, três vezes. De mais a mais, praia, sol e areia não combinam com gente gorda. Quando aquele corpinho lindo, em um mini-biquíni desfilar bem rente ao seu nariz, lembre-se que ele faz 1.000 abdominais por dia, come duas folhas de alface no almoço e uma rodela de tomate no jantar.
Já perdi a conta de quanto tempo não aterrisso numa praia. E não sinto falta alguma, já que a última vez foi um martírio. Foram 10 dias intermináveis dentro de um hotel jogando baralho, olhando para o teto, contando moscas, comendo, engordando, indo e vindo dentro do carro. Enquanto a chuva torrencial caia lá fora initerruptamente. Dez dias que marcaram minha vida.
Decididamente, criança pequena, marido inquieto e babá mal-humorada não combinam com férias. Para mim, aquela praia acabou se transformando no mapa do inferno. Nunca mais.
Viajar é uma das melhores coisas da vida. Mas viajar pra sofrer é tragédia. Dividir a casa de praia com 15 pessoas, eleger cada dia um dos hóspedes para cozinhar, ser o oitavo na fila do banheiro, aguentar ronco e ressaca de quem você não tem a menor intimidade significa ter um lugar no céu reservado. O inferno acaba virando o seu companheiro de quarto. Ou o mais próximo.
É certo. Sem grana, melhor não viajar e amargar as férias em casa, quietinho, sem inventação de moda. Ir para qualquer lugar do planeta a fim de descansar e com a bufunfa zerada significa um salto no escuro. Melhor não arriscar.
Na verdade adoro uma segunda-feira. De domingueira não tenho nada. E 10 dias afastada da minha casa - o melhor lugar do mundo - está pra lá de bom. Tem gente que acha tudo isto uma frescura ímpar, que o bom é curtir o momento. Mesmo que ele signifique esperar, suar, trabalhar, passar fome e raiva. Tem razão, eu sou mesmo um porre de chata.
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