Cá pra nós (Elisiê Peixoto)

Um abraço e três beijinhos

Arquivo FolhaEste ano está decidido, assinado e sacramentado. Presentes, só para os filhos e olhe lá. Vou enfrentar com a maior categoria aquela tia crica da família e a sobrinhada. Vão ganhar dois beijinhos e um feliz Natal. Chega de sair feito um furacão pelas ruas comprando os presentes de última hora, pagando mais caro, errando nos gostos e passando o maior carão. No ano passado resisti até o último momento para não me deixar contagiar por aquela avalanche de comerciais e por aquelas musiquinhas chatas natalinas tocadas em supermercados. Havia jurado que não iria gastar um tostão furado, nem com lembrancinhas. Mas aí ficou aquela cobrança das crianças, toques sutis dos amigos... e lá se foi todo meu 13º salário.
Encontrar o presente não é algo tão simples. Às vezes acertamos em cheio, em outras, só a expressão do presenteado já denuncia a insatisfação. Ele faz aquela cara de mamão-macho e solta um muito obrigado que não convence nem a madre superiora. Eu sou uma atriz nestas horas. Posso ganhar o objeto mais estranho e sem serventia do Planeta, mas estampo uma cara de felicidade que comove. Porque é horrível para a pessoa que presenteou perceber que não agradou. E tem gente que abre o jogo na cara dura. Costumam dizer, ‘‘bonitinho, mas não uso’’, ‘‘que graça, mas já tenho’’. Coisa fina.
Tenho uma amiga que é o máximo. De tão organizada, durante o ano inteirinho vai comprando os presentes de Natal, guardando e amargando a tentação de dar em outra ocasião. Uma proeza. Sempre acerta na escolha e dá cada presentaço...
Também tem gente que vai juntando uma coisinha aqui, outra ali, para ‘‘não deixar a data passar em branco’’. Tenho uma tia que é um exemplo, tal e qual. Em cada viagem, ela arremata o estoque de vidros de perfume para todos os narizinhos, exigentes ou não. Ou então aquelas toalhinhas de lavabo bordadinhas em ponto de cruz, enfeitadas com bordado inglês, passamanaria ou ponto russo que a gente nunca usa de dó. Devo ter umas trinta guardadas em casa.
A história mais hilária que sei sobre presentes, é de uma conhecida que guardou por muito tempo um vaso que havia ganho de aniversário. Detestou o dito cujo. E um certo dia resolveu cometer um ato perigosíssimo: passar o presente pra frente. Doida para se livrar da peça, ela esqueceu de retirar o cartão que estava dentro da caixa, endereçado a ela, e mandou ver. Até hoje ela é motivo de muita gozação. Eu acho que teria morrido de vergonha.
Costumo dizer que o melhor presente é aquele que ganhamos sem esperar. Nesta semana, minha amiga Karlinha deixou sobre minha mesa de trabalho o mais recente CD da Gal. Tudo porque eu havia comentado que o disco é lindo e que ainda não havia comprado. Outro dia foi uma prima que, ao viajar para a Grécia com a grana contadinha, me trouxe conchas, pedras e pedrinhas escolhidas naquelas ilhas paradisíacas e que estão num pote de vidro ocupando um lugar de honra na minha casa. São coisas assim que tocam o coração e que você nunca mais esquece.
Enfim, como neste ano a coisa tá mais pra cocada do que pra manjar, vou passar óleo de peroba na cara de pau e abrir o jogo. Quem gostar de mim vai adorar ganhar um beijo e um abraço. E um Feliz Natal daqueles bem sinceros e que salvam a situação. Tá muito bom.
E-mail:[email protected]

mockup