Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Olha a ferradura aí, gente!
Arquivo FolhaTer educação faz parte da arte de bem viver. A gente aprende a ser educado desde pequeno. Seja numa boa, ou aos trancos e barrancos. E mesmo assim, gente grossa pipoca por todos os cantos só para te infernizar a vida.
Ainda esta semana, ao retornar de carro para a minha casa, fiz o que o bom senso manda, o que a lei de trânsito dita. E bem próximo ao prédio onde moro, numa rua de uma mão, peguei a esquerda e liguei o pisca-pisca indicando que também iria virar à esquerda, a fim de entrar na minha garagem feito gente bem educada. E o fiz numa boa, devagar e sem atropelar o pedestre ou matar o porteiro. Mas ao parar e ao apertar o controle remoto do portão, escutei uma doce criatura gritar para o quarteirão inteiro ouvir: Ô dona Maria, lugar de mulher é no tanque!. Coisa fina aquele troglodita, que no mínimo pensa que a rua toda é dele e de sua Variant, cor de burro quando foge, ano 70, com escapamento aberto e soltando aquele fumacê todo. Aquele, sim, é um perigo ambulante nas ruas. Aquela fina flor, embalada pela canção da dupla Dei Sim & Daí sintonizada numa AM da vida, ficou toda nervosa porque a fiz diminuir a marcha.
Mas aquele senhor não é o único sem educação solto mundo afora. Tem gente pior, muito pior. Como, por exemplo, ser recebida numa loja por uma vendedora que fica fula ao constatar que você não vai levar nadica de nada, só olhar. É crime olhar e não comprar? No afã de comissão, tem vendedora que fica louca para te empurrar um sapato, nem que seja um número menor que o seu pezinho. Ou então diz que a calça serviu como luva. Quando você fica é mesmo parecendo um saco de batatas. Não importa se a cliente é dura, chata, pobre, rica, exigente, sei lá mais o quê. Tem que ser tratada como rainha.
Dia desses, ao chegar num restaurante acompanhada de um casal de fora, tive que engolir a cara feia do maitre e a grossura de um garçom que não estava nem um pouco a fim de anotar o pedido. O local continuava aberto, com pessoas jantando, e o infeliz nos tratando como se nos fizesse um grande favor. Nunca mais voltei e desaconselho todos os amigos a colocarem os pés naquele pedaço gastronômico que se continuar no embalo vai acabar às moscas.
Até por uma aeromoça já fui maltratada ao solicitar um jornal. A resposta veio curta e grossa. Já que as edições a bordo haviam se esgotado, que eu mesma pedisse um, ao vizinho da poltrona ao lado. Não vacilei. Anotei o nome da distinta e enviei uma carta ao presidente da empresa aérea comunicando a total falta de delicadeza e de respeito. Comigo e com outros passageiros nada satisfeitos com o serviço de bordo.
Participar de entrevistas com artistas que tratam jornalistas sem o devido respeito é outra grossura que não deixo barato. Tem personalidades que se julgam imortais, não têm fino trato, não têm cordialidade, recebem os jornalistas como se não dependessem deles para divulgar seu trabalho. De duas, uma: melhor não marcar o bate-papo ou então receber a imprensa com boa vontade, como o faz outra legião de celebridades merecedora de total cobertura.
Há pessoas naturalmente grossas. Intratáveis, mesmo. Gente assim deve ter algum gene defeituoso, alguma falha na cachola, está sempre de mal com a vida e quase sempre é feia de matar.
E como reagir diante de pessoas deste porte? Ser educada ao dobro só para dar um tapa de luva de pelica ou responder com total deselegância? Não importa. Gente sem-educação deve ser colocada de escanteio, levar uma gelada fenomenal e ser riscada da agenda. Garanto que nem assim elas tomam jeito.
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