Cá Pra Nós (Elisiê Peixoto)
Qual é o seu melhor vizinho? É aquele do 303 que vive na dele sem dar o ar da graça durante o ano todo; o do 401, sempre cheio de gentilezas, ou a moça do 202, que retribui seu bom-dia com um belo sorriso às 7 da matina? Não importa. O melhor vizinho é sempre aquele que não incomoda, que não briga por coisa pouca, que respeita os seus limites e que se faz respeitar da mesma forma.
Morar num condomínio - de casas ou de apartamentos -, requer diplomacia e boas doses da política de boa vizinhança, a menos que você goste de ser o centro de fofocas ou de boicotes. Porque todo mundo sabe: tem vizinho que a-do-ra uma conversa trançada, uma confusão, um disse-que-disse. Gente assim tem que primeiro ser colocada no lugar - com etiqueta e bom senso -, e depois ignorada completamente. E deve ser mantida a distância.
Já fui vizinha de gente barulhenta, de gente que vive pedindo tudo emprestado, de mulher e marido que resolvem subir nas tamancas às 3 da matina, de crianças que jogam bola na garagem. Não me rendi ao forfait de uns e outros, mas também não declarei guerra a esses vizinhos, hoje cordiais conhecidos. Nada mais além.
Você pode se mudar para o melhor, o mais elegante, o mais sei lá o quê edifício do mundo. Sempre vai haver um estrupício para te incomodar de alguma forma. Às vezes, escancaradamente; outras, na calada da noite. Vez ou outra vai tocar o seu interfone, alegando que seu som está alguns decibéis acima, que a água cai no parapeito da janela dele cada vez que sua Rosinete lava a vidraça, que você canta muito alto debaixo do chuveiro, etc., coisas do gênero. Essa cruz você vai ter que carregar enquanto dividir o mesmo território, certo?
Não incomodar, assim como manter a cordialidade entre os vizinhos, é regra para se viver bem. Não vou nunca encrencar com a moçada do andar de cima porque o barulho passou da conta e a festa tá fervendo mais que chaleira. Desde que isso não se torne um hábito, e também porque amanhã pode ser que seja eu a dona da festa.
Crianças são sinônimos de barulho, sejam as minhas, as suas, as nossas. E mãe também, quando chega às raias da loucura e solta o vozeirão para colocar os anjos no eixo. Morar num prédio com várias crianças requer doses muito maiores de paciência. Por várias vezes a porta do elevador vai abrir e de lá sair um pequerrucho feito um torpedo, atropelando você e seus pacotes. Outras vezes você vai escutar a disputa em alto e bom som de um jogo de videogame. Outras, ainda, escutar alguns palavrões porque criança fala e na maioria das vezes repete aquilo que o adulto costuma dizer. Generalizando: criança quando quer transforma seu pedaço em caos, fala o que não deve dentro do elevador, conta segredos de estado para o porteiro, apronta na garagem do vizinho, brinca de pique dentro do apartamento. E aperta todos os botões do elevador. Nem que seja uma única vez. Mas as crianças crescem, graças a Deus.
Choro de nenê. Noite adentro, três meses inteirinhos de cólicas. Mas saiba você e tenha toda certeza deste mundo, que os pais são os últimos a querer escutar os berros do recém-nascido. O jeito é sofrer todos juntos, tapar os ouvidos, ligar o ar condicionado - de preferência aquele antigo e bem barulhento -, e mandar um chá de camomila ou de erva-doce para a nova criatura. Pôr a boca no trombone nesta situação é total falta de tato e de compreensão. Exercite sua paciência ou durma num hotel.
E tem mais uma. Marido e mulher que armam o barraco todo o dia estão mesmo é fazendo seu ouvido de utilidade pública. Melhor rolar a baixaria num motel, dentro do carro, numa encruzilhada. Mas não ao lado do seu apê, embaixo ou em cima do seu nariz. Vez ou outra é suportável, mas quando a coisa vira
feijão-com-arroz, aí é total falta de respeito com você e com toda a vizinhança. Não deixe quieto, fale diretamente ou indiretamente, desde que o casal vista a carapuça e rode a baiana bem longe.
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