Cá pra Nós (Elisiê Peixoto)

DESLIGA O TELEFONE!
Na minha casa é proibido telefonar ou atender telefone na hora do almoço e do jantar. Esta foi a única maneira de todos, à mesma mesa, começar e terminar uma refeição juntos. Quem tem filho adolescente sabe do que eu estou falando. Eles usam o telefone para jogar conversa fora, ditar tarefa, falar do namorado, contar piada, trocar figurinhas. Enfim, adolescente simplesmente a-do-ra se pendurar num telefone. E te enlouquecer porque cada vez que você pega no dito cujo, filho ou filha ficam te rodeando feito peru e com aquela cara de ‘‘ô mãe, dá um tempo’’.
Não sei onde li ou ouvi que a invenção de Graham Bell é o melhor amigo da mulher. Então, eu fujo à regra. No trabalho sou hors-concours em atender ligações, mas, em casa, falo o necessário, não gosto de bate-papo furado via telefone. Mesmo porque minha adolescente em questão não deixa. Cada vez que ameaço usá-lo é uma perseguição sem dó. Tenho os minutos contados porque, ou ela espera uma ligação ou usa a Internet. Assim, qual paciência de mãe que não vai para o beleléu?
É fato. Tenho duas linhas em casa, mas não consigo usá-las. Já rezei, fiz sermão, mostrei a conta, ameaçei descontar da mesada. E fiz isso mesmo à revelia dos avós. A casa quase despencou, mas temporariamente surtiu efeito. Só temporariamente, porque a linha continua ocupada.
Dias atrás ela me pediu um celular. Imagina, eu, dando o meu de presente e ela querendo me arrumar mais uma dor de cabeça?! Quando ganhei um telefone celular, comprovei aquilo que já desconfiava. Se para alguns ele é a salvação da pátria, para mim é uma amolação. Eu mais esqueço o celular no banco traseiro do carro do que carrego na bolsa. Com celular à mão, a gente fica vulnerável, é encontrada em qualquer lugar, a qualquer momento. Eu não gosto daquilo. Na verdade, até hoje eu e aquela miniengenhoca não entramos em sintonia. E de mais a mais, meu número de celular é guardado a quatro chaves. Poucas pessoas têm.
A maioria das minhas amigas já presenteou o filho adolescente com celular. E, se por um lado você corre o risco de pagar uma conta faraônica no final do mês - os filhos nem sabem o que é impulso, ou pensam que é desodorante feminino -, por outro, as noites de sábados, para os pais, vão ser mais controláveis. A farra pode estar no auge e você estragar o babado dando o toque de recolher. Pensando bem, vou estudar melhor o assunto...
Outro dia enumerei os telefonemas recebidos por minha filha. Só numa tarde foram mais de 20. Somam-se a estes as ligações feitas por ela, e o resultado só pode ser um: linha ocupada full time. Aí você explica que telefone se usa em caso de real necessidade, que telefonemas são cobrados por minutos, que as outras pessoas da casa também usam o dito cujo, que trabalho escolar não se dita por telefone, que o Graham Bell não pode ser usado a torto e a direito.
E agora, para piorar a situação, tem a tal da Internet. Se durante o dia a moçada se pendura no telefone para jogar conversa fora e gastar o dinheiro dos pais, a noite é o momento certo para navegar na Internet. É a melhor hora para eles entrarem num chat e ficar mentindo para o outro. Aquilo sim é conversa mole, tempo jogado fora, falta do que fazer.
A gente acha que nunca vai conseguir sobreviver sem um telefone por perto. Até acho que a maioria das pessoas entra em parafuso sem um Graham Bell a menos de 10 metros de distância. Mas fazer dele o sentido da vida, é de lascar. Nada mais irritante do que você estar com uma pessoa que atende ao celular de 5 em 5 minutos, tanto, que já deixei um amigo falando sozinho por ter que interromper a conversa o tempo todo. Existe maior falta de educação do que isto?
E-mail:[email protected]

mockup